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Amílcar Cabral: “Alguns Princípios do Partido”

Amílcar Cabral

19 a 24 de Novembro de 1969

Grafite de Amilcar Cabral com as cores e arranjo padrão da bandeira da P.A.I.G.C (partido do qual fez parte até seu assassinato).


De 19 a 24 de Novembro de 1969 o P.A.I.G.C efectuou um Seminário de quadros. Durante o qual Amílcar Cabral pronunciou algumas alocuções subordinadas ao tema «Alguns princípios do Partido».


O texto gentilmente cedido pelo P.A.I.G.C permite que a Seara Nova recorde aqui a memória do camarada Amílcar Cabral no 50º aniversário do seu Nascimento.

 

I — UNIDADE E LUTA


Vamos continuar o nosso trabalho e vamos tentar conversar um bocado com os camaradas, sobre alguns princípios do nosso Partido e da nossa luta. Os camaradas que tiveram conhecimento de um documento que foi publicado com o nome de «Palavras de Ordens Gerais do nosso Partido», feito em 1965, devem lembrar-se que na parte final desse documento há um capítulo que é «Aplicar na prática os princípios do Partido». Claro que nestas palavras de ordem falou-se de alguns princípios bastante gerais e hoje nós podemos conversar sobre mais princípios ainda, além desses. Claro que todos sabem isso, mas às vezes não sabem que isso é que é o fundamental, as bases, princípio da nossa luta. A nossa luta tomada no seu aspecto fundamentalmente político, no seu aspecto principal que é o aspecto político. Claro que, para definirmos, por exemplo a estratégia e até as tácticas, que adoptamos na nossa luta armada de libertação, outros princípios foram enunciados, embora esses princípios de luta armada não sejam mais do que a passagem dos nossos princípios gerais para o campo da luta armada.


Um primeiro princípio do nosso Partido e da nossa luta, que todos nós conhecemos bem é: «Unidade e Luta», que é mesmo a divisa, se quiserem, o lema do nosso Partido. Unidade e Luta. Claro que para estudar bem o que é que quer dizer este princípio bastante simples, é preciso sabermos bem o que é unidade e o que é luta. E é preciso colocarmos, realizarmos o problema da Unidade, e o problema da Luta num dado lugar, quer dizer, do ponto de vista geográfico, e considerando a sociedade —vida social, económica, etc. — do ambiente em que queremos aplicar este princípio de Unidade e Luta.


O que é Unidade? Claro que podemos tomar unidade num sentido que se pode chamar estático, parado, que não é mais que uma questão de número, por exemplo, se considerarmos o conjunto de garrafas que há no mundo, uma garrafa é uma unidade. Se considerarmos o conjunto de homens que está nesta sala, o camarada Daniel Barreto é uma unidade. E por aí fora. Essa é a unidade que nos interessa considerar no nosso trabalho, do qual falámos nos nossos princípios do Partido? É e não é. É, na medida em que nós queremos transformar um conjunto diverso de pessoas, num conjunto bem definido, buscando um caminho. E não é, porque aqui não podemos esquecer que dentro desse conjunto há elementos diversos, pelo contrário, o sentido de unidade que vemos no nosso princípio é o seguinte: qualquer que sejam as diferenças que existem, é preciso ser um só, um conjunto, para realizar um dado objectivo. Quer dizer, no nosso princípio, Unidade é no sentido dinâmico, quer dizer de movimento


O que é Unidade? Claro que podemos tomar unidade num sentido que se pode chamar estático, parado, que não é mais que uma questão de número, por exemplo, se considerarmos o conjunto de garrafas que há no mundo, uma garrafa é uma unidade. Se considerarmos o conjunto de homens que está nesta sala, o camarada Daniel Barreto é uma unidade. E por aí fora. Essa é a unidade que nos interessa considerar no nosso trabalho, do qual falámos nos nossos princípios do Partido? É e não é. É, na medida em que nós queremos transformar um conjunto diverso de pessoas, num conjunto bem definido, buscando um caminho. E não é, porque aqui não podemos esquecer que dentro desse conjunto há elementos diversos, pelo contrário, o sentido de unidade que vemos no nosso princípio é o seguinte: qualquer que sejam as diferenças que existem, é preciso ser um só, um conjunto, para realizar um dado objectivo. Quer dizer, no nosso princípio, Unidade é no sentido dinâmico, quer dizer de movimento


Vocês vêem uma pessoa a vir, por exemplo com um balaio na cabeça, essa pessoa costuma vender frutas. Vocês não sabem que frutas é que estão dentro do balaio mas dizem: ela vem com um balaio de frutas. Podem ser mangos, bananas, papaias, goiabas, etc, dentro do balaio. Mas na nossa ideia, ela vem com um conjunto que representa uma unidade, um balaio na cabeça, um balaio de frutas. Mas vocês sabem que isso é uma unidade tanto do ponto de vista de número —um balaio de frutas— como no objectivo de o vender, tudo é a mesma coisa embora haja várias coisas dentro dele: frutas diversas, mangos, bananas, papaias, etc. Mas a questão fundamental que é vir com frutas para vender, faz de tudo uma coisa só.


Isto é para dar aos camaradas uma ideia do que é unidade e para dizer aos camaradas que o fundamento principal da unidade é que para ter unidade é preciso ter coisas diferentes. Se não forem diferentes, não é preciso fazer unidade. Não há problema de unidade. Ora para nós o que é unidade? Qual é o objectivo em torno do qual devíamos fazer unidade na nossa terra? Claro que não somos um 'time' de futebol, nem um balaio de frutas. Nós somos um povo, ou pessoas de um povo, que a certa altura da história desse povo, tomaram um certo rumo no seu caminho, criaram certos problemas no seu espírito e na sua vida, orientaram a sua acção num certo rumo, puseram certas perguntas e buscaram respostas para essas perguntas. Pode ter começado por uma pessoa só, por duas, três, seis. A certa altura apareceu este problema no nosso meio — Unidade. E o Partido foi tão advertido, quer dizer, entendeu isso, tão bem, que no seu próprio lema, como princípio principal, como base de tudo, ele pôs — Unidade e Luta.


Agora surge uma pergunta: essa Unidade que surgiu como uma necessidade, era porque as nossas ideias eram diferentes do ponto de vista político? Não, nós não costumávamos fazer política na nossa terra nem havia nenhum Partido na nossa terra. Mas mais ainda, é que debaixo da dominação estrangeira — como é o caso da nossa terra e doutras terras ainda — uma sociedade que não está muito desenvolvida, como é o caso da Guiné e Cabo Verde, em que a diferença entre as situações das pessoas, não é muito grande, embora como vimos, haja algumas difererenças, é muito difícil os objectivos políticos serem muito diferentes uns dos outros. Quer dizer, o nosso problema de unidade, não era no sentido de reunir várias cabeças diferentes, pessoas diferentes, do ponto de vista de objectivos políticos, de programas políticos, não. Primeiro porque, na própria estrutura da nossa sociedade, na própria realidade da nossa terra, as diferenças não são tão grandes, para provocarem tantas diferenças de objectivos políticos. Mas, segundo e principal, porque com a dominação estrangeira na nossa terra, com a proibição total que sempre houve, em toda a nossa vida, de fazer qualquer partido político na nossa terra, não havia partidos diferentes para terem de se unir, não havia rumos políticos diferentes para seguirem o mesmo caminho, para se juntarem para fazer a Unidade.


Então qual era o problema de unidade na nossa terra? Fundamentalmente, o problema de unidade era este e simples: em primeiro lugar, como toda a gente sabe, a união faz a força. A partir do momento em que surgiu na cabeça de alguns filhos da nossa terra a ideia de fazer os estrangeiros saírem da nossa terra como dominadores, de acabar com a dominação colonialista na nossa terra, pôs-se um problema de força, uma força necessária para ser oposta à força do colonialista. Portanto, quanto mais gente se unir, quanto mais unidos estivermos, nós correspondemos àquilo que todo o mundo sabe, e que é: a união faz a força. Se eu tirar um pau de fósforos e o quiser quebrar, quebro-o rapidamente, se juntar dois, já não é tão fácil, três, quatro, cinco, seis, chegará um dado momento em que não poderei quebrar, é escusado. Mas além disso, para além desse caso, simples, natural, de que a união faz a força (e temos que ver, que nem sempre a união faz a força, há certos tipos de união que fazem é fraqueza — e essa é que é a maravilha do mundo, é que todas as coisas têm dois aspectos um positivo e outro negativo), aqueles que tiveram a ideia de unidade, porque a união faz a força, puseram o problema de unidade no seu espírito e na realidade da nossa luta, porque eles sabiam que no nosso meio havia muita divisão. Tanto na Guiné como em Cabo Verde, há divisão, quer dizer, divisão em crioulo, quer dizer contradição. No meio da nossa sociedade, por exemplo, qualquer pessoa que pensa a sério na nossa luta, sabe que se todos fossem muçulmanos, ou todos fossem católicos, ou animistas, quer dizer acreditar em «iran», era mais simples. Pelo menos nenhuma força contrária aos interesses do nosso povo poderia tentar dividir-nos por causa da religião. Mas mais ainda, vejamos Cabo Verde. Em Cabo Verde. Em Cabo Verde onde não há muitos problemas de religião, a não ser algumas questõezinhas entre protestantes e católicos na sua boa vida da cidade, há outros problemas que dividem as pessoas, como por exemplo: algumas famílias têm terra, outras não têm. Se toda a gente tivesse terras ou se ninguém tivesse terras, era mais simples. O inimigo por exemplo, força contrária a nós, da qual queremos libertar a nossa terra, pode pôr do seu lado aqueles que têm terra," contra nós, na ideia de que nós queremos tirar-lhes a terra. Assim como na Guiné ele pode pôr os régulos contra nós, na ideia de que lhes queremos tirar o mando, se não houvesse régulos era mais simples. Quer dizer que o problema da unidade surge na nossa terra, repito bem, não por causa da necessidade de juntar pessoas com pensamentos políticos diferentes, mas sim por causa da necessidade de juntar pessoas com situação económica diferente, embora essa diferença não seja tão grande como noutras terras — com situação social diferente, com culturas diferentes, incluindo a religião, quer dizer, pusemos o problema de unidade na nossa terra, tanto na Guiné como em Cabo Verde, no sentido de tirar ao inimigo a possibilidade de explorar as contradições que pode haver entre a nossa gente para enfraquecer a nossa força, que temos que opor contra a força do inimigo.


Portanto, vemos que a unidade é qualquer coisa que temos de fazer, para podermos fazer outra coisa. Quer dizer, para lavarmos, se não formos doidos, por exemplo, ou abrindo a torneira, ou lavando-se no rio, não vamos entrar na água sem nos despirmos, temos que tirar a roupa primeiro. É um acto que fazemos, um preparativo que fazemos para podermos tomar banho, suponhamos. Mas melhor, se quisermos fazer uma reunião nesta sala, com pessoas sentadas, etc, temos que convocar as pessoas, pôr mesas na sala, arranjar lápis, canetas, etc. Quer dizer temos que arranjar meios, para podermos fazer uma reunião como deve ser. A unidade também é um meio, um meio, não é um fim. Nós podemos ter lutado um bocado pela unidade, mas se nós fazemos unidade, isso não quer dizer que a luta acaba. Há muita gente que nesta luta das colónias contra o colonialismo, até hoje, ainda estão a lutar pela unidade. Porque como não são capazes de fazer a luta, pensam que a unidade é que é a luta. A unidade é um meio, para lutar e como todos os meios, tem uma certa, quantidade que chega. Não é preciso para lutar num país, unir toda a gente. Temos a certeza de que toda a gente está unida? Não, basta realizar um certo grau de unidade. Se chegarmos lá, então podemos lutar. Porque então, as ideias que estão na cabeça dessas pessoas avançam, desenvolvem-se e servem cada dia mais para realizar o objectivo que temos em vista. Portanto os camaradas já viram, mais ou menos, qual é a ideia fundamental que está neste nosso princípio — Unidade.


E o que é luta ? — Luta é uma condição normal de todos os seres no mundo. Todos estão em luta, todos lutam. Por exemplo, vocês estão sentados em cadeiras, eu estou sentado nesta cadeira, isto é um exemplo: o meu corpo está todo a fazer uma força sobre o soalho, através do banco que está em cima dele, mas se o soalho não tivesse força suficiente para me aguentar, eu ia para baixo, furava o soalho e se debaixo do soalho não houvesse uma força, continuava a furar, e por aí fora. Portanto há aqui uma luta silenciosa entre a força que eu exerço sobre o soalho e. a força do solo que me mantém em cima, que não me deixa passar. Mas vocês todos sabem que a terra está sempre em movimento, talvez alguns ainda não acreditem, mas sabem, a terra faz um movimento de rotação. Se vocês puserem um prato a girar, em movimento de rotação e se puserem uma moeda por cima dele, verão que o prato expulsa a moeda. Quem usar uma funda para espantar os corvos ou os pardais, como se faz na Guiné ou em Cabo Verde, com uma pedra sabe que, quando puser a pedra na funda e der voltas e voltas, não é preciso arremessar, basta alargar uma ponta da funda e a pedra sai com uma força enorme. O que é preciso é ter boa pontaria para se poder fazer o que se quiser, para saber o momento em que se deve largar a pedra. Quer dizer tudo aquilo que gira, na área em que gira desenvolve uma força a que arremessa as coisas para fora. Portanto, nós todos que estamos sobre a terra, que gira, estamos sempre a ser repelidos por uma força que nos empurra para fora da terra, que se chama força centrífuga — que nos empurra do centro para fora.. Mas há também uma outra força que atrai as pessoas para terra, que é a força da gravidade, quer dizer a terra como força magnética que é, atrai todos os corpos que estão perto dela, conforme a distância e a massa de cada corpo. Mas nós estamos sobre a terra e não vamos por aí fora, porque a força da gravidade é muito mais que a força centrífuga que nos atira para fora. O problema de mandar corpos para a lua, etc, o problema fundamental para os cientistas é o seguinte: vencendo a força da gravidade, conseguem sair da terra. E hoje sabemos que, para que um corpo possa ser lançado fora da terra, vencendo a força da gravidade, ele tem que andar 11 km por segundo. Se andar numa velocidade tal, que atinja 11 km por segundo, já venceu a gravidade. Portanto toda a força que actua sobre qualquer coisa, só pode existir se há uma força contrária. Tu que tens a mão no rosto, a tua mão não move o rosto porque o rosto também resiste. Tu não sentes, mas ele empurra também. Porque só o peso é uma forma de empurrar, etc.


No nosso caso concreto, a luta é o seguinte: os colonialistas portugueses, ocuparam a nossa terra, como estrangeiros e, como ocupantes exerceram uma força sobre a nossa sociedade, sobre o nosso povo. Força que fez com que eles tomassem o nosso destino nas suas mãos, fez com que parassem a nossa história para ficarmos ligados à história de Portugal, como se fôssemos a carroça do comboio de Portugal. E criaram uma série de condições dentro da nossa terra: económicas, sociais, culturais, etc


Para isso eles tiveram que vencer uma força. Durante quase 50 anos fizeram uma guerra colonial contra o nosso povo; guerra contra manjacos, contra pépeis, contra fulas, contra mandingas, beafadas, balantas, contra felupes, contra quase todas as tribos da nossa terra, na Guiné. Em Cabo Verde, os colonialistas portugueses, que encontraram Cabo Verde deserto, na altura em que apareceu a grande exploração de homens africanos, como escravos no mundo, dada a situação importante de Cabo Verde, em pleno Atlântico, resolveram fazer de Cabo Verde um armazém de escravos. Gente levada de África, nomeadamente da Guiné, foi colocada em Cabo Verde, como escravo. Mas pouco a pouco, aumentaram de número, as leis no mundo mudaram e eles tiveram que deixar de fazer negócio de escravos. Passaram então a exercer sobre essa gente, uma pressão parecida com a pressão que exercem na Guiné, quer dizer uma força colonial. Sempre houve resistência a essa força colonial. Se a força colonial age duma forma sempre houve uma força nossa, que age contra, muitas vezes tem outras formas: resistência passiva, mentiras, tirar o chapéu, sim senhor, utilizar todas as artimanhas possíveis e imaginárias, para enganar os tugas. Porque não podíamos enfrentá-lo cara a cara, tínhamos que o enganar, mas com as energias gastas debaixo dessa força: miséria, sofrimento, morte, doenças, desgraças, além de outras consequências de carácter social, como atraso em relação a outros povos no mundo. A nossa luta hoje é o seguinte: é que surgiu, com a criação do nosso Partido, uma força nova que se opôs à força colonialista. O problema é de saber, na prática, se essa força unida do nosso povo pode vencer a força colonialista: isso é que é a nossa luta. Isso é o que nós chamamos Luta.


Agora, tomadas em conjunto, Unidade e Luta quer dizer que para lutar é preciso unidade, mas para ter unidade também é preciso lutar. E isso significa que mesmo entre nós, nós lutamos; talvez os camaradas não tenham compreendido bem. O significado da nossa luta, não é só em relação ao colonialismo, é também em relação a nós mesmos. Unidade e Luta. Unidade para lutarmos contra o colonialista e luta para realizarmos a nossa unidade, para construirmos a nossa terra como deve ser.


Camaradas, todo o resto é a aplicação deste princípio básico nosso. Quem não o entender, ele tem que entender, porque senão ainda não entendeu nada da nossa luta. E nós temos que realizar este princípio, em três planos fundamentais: Na Guiné, em Cabo Verde e na Guiné e Cabo Verde. Quem estudou o programa do Partido, sabe que é assim mesmo.


Da conversa que eu já fiz, vocês viram qual foi a contradição que tivemos e que temos permanentemente que vencer, para podermos garantir a unidade necessária para a luta na Guiné. Pelos exemplos que vos dei na Guiné, vocês sentiram mais ou menos, quais foram e quais são as contradições que temos que vencer em Cabo Verde, para garantirmos a unidade necessária para realizarmos a luta em Cabo Verde. Os camaradas sabem, que os tugas nos dividiram muito, nós mesmos nos dividimos, como consequência da evolução da nossa vida.


Na Guiné, por exemplo: por um lado há gente da cidade, por outro, gente do mato, pelo menos. Na cidade há brancos e pretos. Entre os africanos há altos empregados e empregados médios, que têm a certeza de que no fim do mês o seu dinheiro certo. Tem aquela ideia de comprar o seu carrinho, como eu, por exemplo, que tinha o meu próprio carro. Com geleira, boa raça de mulher, filhos que vão ao liceu de certeza e que mesmo, se estudarem muito, vão para Lisboa. Depois há aqueles empregadinhos, mais ou menos, que fazem o seu sábado, com o seu tinto e o seu bacalhau, que pode comprar o seu rádio transistor e as suas coisas. Depois há os trabalhadores de cais, reparadores de carros, podemos meter aí os chauffeurs e outros que vivem um bocado melhor. Trabalhadores assalariados em geral. E depois há aquela gente que não tem nada que fazer, que vive de expediente cada dia, por todo o lado, que nem mesmo sabem que fazer para arranjarem maneira de viver. Quer gente de vida fácil, como as prostitutas, quer pedintes, trapaceiros, ladrões, etc, gente que não tem nada que fazer. Isto é que é a sociedade das cidades.


Na Guiné, por exemplo: por um lado há gente da cidade, por outro, gente do mato, pelo menos. Na cidade há brancos e pretos. Entre os africanos há altos empregados e empregados médios, que têm a certeza de que no fim do mês o seu dinheiro certo. Tem aquela ideia de comprar o seu carrinho, como eu, por exemplo, que tinha o meu próprio carro. Com geleira, boa raça de mulher, filhos que vão ao liceu de certeza e que mesmo, se estudarem muito, vão para Lisboa. Depois há aqueles empregadinhos, mais ou menos, que fazem o seu sábado, com o seu tinto e o seu bacalhau, que pode comprar o seu rádio transistor e as suas coisas. Depois há os trabalhadores de cais, reparadores de carros, podemos meter aí os chauffeurs e outros que vivem um bocado melhor. Trabalhadores assalariados em geral. E depois há aquela gente que não tem nada que fazer, que vive de expediente cada dia, por todo o lado, que nem mesmo sabem que fazer para arranjarem maneira de viver. Quer gente de vida fácil, como as prostitutas, quer pedintes, trapaceiros, ladrões, etc, gente que não tem nada que fazer. Isto é que é a sociedade das cidades.


Assim como os trabalhadores do cais, de barcos, carregadores, etc, já é outro grupo. Vocês podem encontrar-se, conversar, etc, mas que não vão sentar-se juntos com eles à mesa para comer. Assim como no grupo dos tugas por exemplo, as famílias do governador, do director do banco, do director de Fazenda, etc, não vemos aí nunca a mulher do tuga operário ou de qualquer um que é batedor de chapas. Só se ele tiver alguma filha muito linda, que toda a gente admira, e que de vez enquanto vai dançar com a gente da alta. Mas a mãe que não sabe ler nem escrever, não vai. Acompanha a filha à porta e sai. Vocês lembram-se de casos desses em Bissau.


A sociedade, em Cabo Verde, é parecida, o mesmo género de sociedade, na cidade. Somente em Cabo Verde esse grupo de africanos que tem alguns meios, era há tempo muito maior que na Guiné. Tanto funcionários como proprietários, donos da terra. Embora esteja a terra, no mato, eles vivem na cidade. E na cidade, a posição é mais ou menos esta: funcionários ou empregados já com certo nível, pequenos funcionários e empregados, trabalhadores que podem ser postos fora qualquer dia e aqueles que não têm nada que fazer. Esta é que é a sociedade da cidade, tanto na Guiné como em Cabo Verde. Na Guiné ou em Cabo Verde, o número de brancos foi sempre pequeno. Na Guiné nunca passaram de três mil, e em Cabo Verde, parece mesmo que nunca chegaram a mil. Brancos civis, fazendo uma vida normal, como funcionários, técnicos, comerciantes, empregados, etc.


É claro que esta sociedade na cidade, temos que vê-la em relação à luta para fazermos a unidade. Porque nós, contra os colonialistas portugueses, queremos até mesmo gente desse grupo de brancos, para lutarem ao nosso lado, se eles quiserem. Porque entre os brancos, pode haver uns que são a favor do colonialismo e outros que são anticolonialistas. Se esses se juntarem a nós, é bom, é mais força contra os colonialistas. Aliás vocês sabem que exploramos isso bastante. O camarada Luís Cabral, por exemplo, se conseguiu fugir, foram os brancos que o tiraram de Bissau, para passar em Ensalma, para seguir para a fronteira. Dois brancos, todos vocês sabem. Uma pessoa que teve influência no trabalho do nosso Partido em Bissau, foi uma portuguesa. Só quem não está no Partido é que não sabe isso. Ao Osvaldo, a primeira pessoa que lhe ensinou coisas para a luta, foi ela, não fui eu. Eu não conhecia o Osvaldo.


Quer dizer, para lutar contra o inimigo colonialista, todas as forças que possamos juntar, que venham, que venham. Mas não e às cegas, temos que saber qual é a posição de cada um em relação aos colonialistas. Então, nas cidades verifica-se o seguinte; brancos, muito poucos fizeram alguma coisa contra os colonialistas. Primeiro, porque eles, são a classe colonial, os que representam mais o colonialismo na nossa terra; segundo porque vários não estão para isso porque têm a sua vida, querem ir-se embora quando ganharem muito dinheiro, não estão para maçadas; e terceiro, porque os brancos, os tugas que vivem na nossa terra, não têm em geral formação política bastante para tomar uma atitude concreta, aberta, contra um regime qualquer, estejam onde estiverem.


E nós africanos ? Entre os grupos a que podemos chamar pequenos-burgueses, gente com uma vida certa, seja descendentes de guineenses ou de caboverdianos, aparecem sempre três grupos de pessoas. Um grupo pequenino, mas forte, que é a favor dos colonialistas, que nem mesmo querem ouvir falar disso, da luta contra os tugas. Daquelas pessoas que foram a minha casa em Pessubé, como gente grande, bem empregada, comendo bem, bebendo bem, que vai a férias, etc, sentaram-se e disseram: «Bom queremos conversar contigo. Tu, filho do fulano de tal, nós conhe-mos-te bem, estás-te a meter em problemas, estás a estragar a tua carreira de engenheiro, nós queremos aconselhar-te, porque nós não temos nada que fazer contra os tugas, nós todos somos portugueses». Para esses não há remédio. Uma grande maioria de pequenos burgueses, que está indecisa, que estava indecisa e que certamente ainda está hoje, porque eles pensam: «O Cabral vem com as suas coisas, com a sua gente, de facto seria bom que corrêssemos com os tugas, mas...» Quem mais sofre com os tugas são essa gente da cidade, todos os dias os tugas estão em cima deles, a aborrecê-los, nas cidades, quer dizer, Mansoa, Bissau, Bissorá, Praia, S. Vicente. Os brancos que vêm, como aspirantes ou escriturários. Se há concursos, os brancos passam logo à frente. Por exemplo, o pai do Cruz Pinto, tanta gente que lhe passou adiante, mas ele estava lá assim como os pais de outros que estão aqui. É gente que sofre directamente com o colonialismo todos os dias. Enquanto por exemplo, o homem que vive no mato, lá no fundo do Óio, ou no Foreá, por vezes morre sem ter visto um branco. Lembro-me por exemplo, que, quando um agrónomo português foi comigo visitar certas áreas no Oio, as crianças chegavam perto dele e esfregavam-lhe o braço para ver, porque é que ele era assim, branco. Alguns perguntaram-lhe mesmo — mas porque é que você é assim? Nunca tinham visto um branco. Enquanto que quem vive na cidade vê brancos todos os dias. Continuando, esse é um grupo de gente, grande grupo de pequenos-burgueses que têm o seu vencimento no fim do mês e que o seu desejo de facto é que os tugas se vão embora, mas têm medo, porque não sabem se na realidade nós podemos ganhar. O Cabral veio com a sua gente, as suas ideias, mas se nós perdemos? Perdemos a nossa geleira, o nosso dinheiro no fim do mês, o nosso rádio, o nosso sonho de ir a Portugal passar as férias. Férias em Portugal para virem depois gabar-se (roncar) etc. Tudo isso fá-los ficar na indecisão na balança. Mas há um grupo mais pequeno que desde o começo se levantou com a ideia de lutar, que é contra o colonialismo português, que está pronto a morrer, se for preciso, contra o colonialismo português. E é nesse mesmo grupo que surgiram pessoas que pegaram no Partido. Porque se vocês repararem bem, a maior parte das pessoas que criaram o Partido, nem pagaram imposto, nem levaram porrada, nem mesmo tiveram falta de emprego, pelo contrário, tinham uma vida razoável. Essa é a situação da nossa pequena burguesia diante da luta, quer na Guiné, quer em Cabo Verde


E os nossos trabalhadores assalariados? A maioria é favorável à luta, pelo menos no começo. Nós estamos a falar do começo. A maioria, carpinteiros, pedreiros, sobretudo marinheiros, mecânicos, chauffeurs mesmo, que sentiam a exploração no duro que ganhavam um salário miserável. É que quando um homem que trabalha como pedreiro ganha dez, e um branco ganha 80$00 senão 800$00, ele sente uma exploração grande pela sua condição de vida. Mas nesse grupo também há gente que não quer lutar, que é favorável ao colonialismo.


E os nossos trabalhadores assalariados? A maioria é favorável à luta, pelo menos no começo. Nós estamos a falar do começo. A maioria, carpinteiros, pedreiros, sobretudo marinheiros, mecânicos, chauffeurs mesmo, que sentiam a exploração no duro que ganhavam um salário miserável. É que quando um homem que trabalha como pedreiro ganha dez, e um branco ganha 80$00 senão 800$00, ele sente uma exploração grande pela sua condição de vida. Mas nesse grupo também há gente que não quer lutar, que é favorável ao colonialismo.


No caso da Guiné concretamente é preciso reparar que há um certo grupo de gente que está entre a pequena burguesia e os trabalhadores assalariados, não sei bem que nome dar-lhes. Muitos rapazes que não têm emprego certo, sabendo ler e escrever, trabalhando um bocado ou outro, vivem muitas vezes à custa do tio que está na cidade —e nós temos muito disso na nossa terra — mas que tinham um contacto permanente com o colonialismo: jogadores de bola, um tanto entusiasmados com o tuga, mas sentiam também um bocado, por exemplo: bom jogador, baile no U. D. I. B., mas ele não pode entrar, etc. Essa gente veio para a luta muito rapidamente. E desempenharam o papel importante nesta luta, porque, por um lado, são da cidade e por outro lado estão muito ligados ao mato. Não tinham nada a perder a não ser o seu jogo de futebol ou um empregozinho (alfaiate, carpinteiro) mas que praticamente não queriam aquele emprego porque sabiam bem que isso não valia muito, para poderem viver (roncar) junto do tuga. Porque eles querem roncar ao lado do tuga e querem a Africa também. Gente que aprendeu na cidade como é bom ter coisas boas, mas que por causa da humilhação que sofre, sente que o tuga está a mais. E o Partido ajudou-os a aumentar a sua consciência disso.


E no mato? No mato é conforme: se é na nossa sociedade balanta não há problemas. A sociedade balanta é uma sociedade chamada horizontal, quer dizer não tem classes, por cima uma das outras. Os balantas não têm chefes grandes, os tugas é que lhes arranjaram chefes. No balanta cada família, cada morança tem a sua autonomia e, se há algum problema, é o conselho dos velhos que o resolve, mas não há um Estado não há nenhuma autoridade que manda em toda a gente. Se havia, no nosso tempo, porque vocês são jovens, é porque o tuga o pôs lá. Há mandingas chefes de balantas, antigos cipaios que põem como chefes. Mas eles não podem resistir, que é que hão-de fazer, aceitam, mas estão-se marimbando para o chefe. Cada um manda na sua casa, e entendem-se bem, juntam-se para lavrar, etc, e não há muita conversa. E até acontece no grupo balanta, haver duas moranças perto uma da outra e elas não se dão entre elas. Ou por causa da terra, ou qualquer outra questão do passado. Não querem nada uma com a outra. Mas isso são costumes antigos que era preciso explicar, donde vêm, se tivéssemos tempo. Coisas passadas, de sangue, de casamento, de crenças, etc. A sociedade balanta é assim: Quanto mais terra tu lavras, mais rico tu és, mas a riqueza não é para guardar, é para gastar, porque um não pode ser muito mais que o outro. Esse é que .é o princípio da sociedade balanta, como doutras sociedades da nossa terra. Enquanto os fulas, os manjacos, etc, têm chefes, mas chefe não porque o tuga o pôs lá, é a própria evolução da sua história. Claro que, temos que dizer aos camaradas que na Guiné, os fulas e os mandingas pelo menos, são gente que veio de fora. A maioria dos fulas e dos mandingas da nossa terra, era gente antiga da terra, que se tornou fula ou mandinga. Ê bom saberem bem isso, para poderem compreender certas coisas. Porque se compararmos as regras da vida dos fulas da nossa terra com as dos fulas de verdade noutras áreas de África, há já um bocado de diferença, mesmo no Futa Djalon já é diferente. Na nessa terra muitos se tornaram fulas: os mandingas antigos viraram fulas. Os mandingas mesmo que vieram, conquistaram até a região de Mansoa e mandinguisaram as pessoas, transformaram-nas em mandingas. Os balantas recusaram-se e muita gente diz que a própria palavra balanta significa aqueles que recusam. O Balanta é aquele que não se convence, que nega. Mas não recusou tanto porque existe balanta-mane o mansoaner. Sempre apareceram alguns que aceitaram e foram aumentando aos poucos, aceitar ser muçulmanos.


Balantas, pepel, mancanhas, etc, era tudo gente do interior de Africa que os mandingas empurraram para junto do mar. Os Sussus da República da Guiné, por exemplo, vêm do FutaDjalon, os mandingas e os fulas é que os tiraram de lá. Os mandingas tiraram e depois vieram os fulas que tiraram também mandingas. Como dissemos a sociedade de fulas, por exemplo, a sociedade manjaca, já é uma sociedade que tem gente (classes) de baixo para cima. Na balanta não, quem levantar muito a cabeça já não presta, já quer virar branco, etc. Por exemplo se se lavrar muito arroz, é preciso fazer uma grande festa, para gastar. Enquanto que os fulas e os manjacos têm outras regras, uns mais do que os outros. Quer dizer as sociedades manjaca e fula são chamadas verticais. Em cima há o chefe, a seguir os religiosos, a gente grande da religião que com os chefes forma uma classe, a seguir vêm os outros de profissões diversas (sapateiros, ferreiros, ourives) que, em qualquer sociedade não têm direitos iguais aos de cima? No costume antigo, quem é ourives, tem mesmo vergonha. Quanto mais se for «Djideu». Portanto, uma série de profissões, em escala, mas umas abaixo de outra. O ferreiro não é a mesma coisa que o sapateiro e o sapateiro não é a mesma coisa que o ourives, etc, cada um tem a sua profissão, clara. Depois então vem a grande massa da gente que lavra o chão. Lavra o chão para os chefes como é costume. Esta é a sociedade fula e a sociedade manjaca. Com todas as teorias necessárias, teorias como: um dado chefe está ligado com Deus. No manjaco por exemplo, se alguém é lavrador, ele não pode lavrar o chão sem ordem do chefe, porque o chefe é que tem a palavra de Deus para lhe dar. Cada um é livre de acreditar no que quiser. Mas todo um ciclo criado para quê? Para os que estão por cima garantirem a certeza de que os que estão por baixo não se levantam contra eles. Mas na nossa terra aconteceu várias vezes entre os fulas, por exemplo, que gentes de baixo, levantaram-se e lutaram contra os de cima. Houve revoltas de camponeses em grande, várias vezes. Temos, por exemplo o caso de Mussa Moio, que deitou abaixo e tomou conta do lugar. Mas acabou de tomar conta do lugar, adoptou a mesma lei antiga, porque essa é que era boa, tudo continuou na mesma, porque assim é que está bem. E esqueceu-se logo donde tinha saído. Isso é o que muita gente quer infelizmente.


Nesta sociedade do mato, grande número de balantas pegou na luta e não é por acaso, não é porque os balantas são melhores que os outros. É por causa do tipo de sociedade que eles têm, sociedade horizontal (rasa) mas de homens livres, que querem ser livres, que não têm nenhuma opressão em cima, a não ser a opressão dos tugas. O balanta é ele e o tuga por cima dele, porque o chefe que lá está, o Mamadu, ele sabe que não é nada seu chefe, foi o tuga que o pôs lá. Portanto, mais interesse ele tem em acabar com isso para ficar com a sua liberdade absoluta. E é por isso também que quando qualquer elemento do Partido comete um erro com os balantas, eles não gostam e zangam-se depressa, mais depressa do que qualquer outro grupo.


Enquanto que entre fulas e manjacos não é assim. A grande massa que sofre de facto é a de baixo, os trabalhadores da terra (camponeses). Mas entre eles e os tugas há muita gente. Já se habituou a sofrer, a sofrer com a sua própria gente, sob a operação da sua própria gente. E que quem lavra a terra, tem que trabalhar para todos os chefes, muitos chefes, além de chefes de posto. Então verificou-se o seguinte: quando compreenderam de facto, grande parte dos camponeses pegou na luta, salvo um grupo ou outro no qual não trabalhamos bem. Nos que estão a cima deles (os profissionais) alguns pegaram e outros não, mas muito interesseiros, trabalham muito para eles mesmos (artesãos) e entre os religiosos e os chefes, raros foram os que pegaram no Partido, porque têm medo de perder os seus privilégios, a favor da luta. Nessas sociedades de classes, há um grupo que desempenha um papel especial: os que levam mercadorias dum lado para o outro, para vender ou para trocar (dentro ou fora da terra). Trocam mercadorias, emprestam dinheiro aos chefes etc. São os «Djilas». É um grupo especial, no quadro da nossa sociedade.


Essas são as sociedades que têm classes: classe dirigente, classe de artesãos, classe de camponeses. Era preciso fazermos unidade, o máximo possível, das forças de diferentes classes, de diferentes elementos da sociedade para fazermos a luta na nossa terra. Não é preciso unir toda a gente, como já disse, mas é preciso ter um certo grau de unidade. Mas isso vê-se numa sociedade apenas do ponto de vista da sua estrutura social, no seu sentido comum, vulgar. Porque na nossa sociedade há vários grupos étnicos, quer dizer, grupos com culturas e costumes diferentes e que, segundo a sua própria convicção, vieram de grupos diferentes, de origens diferentes : fulas, mandingas, pépeis, balantas, manjacos, mancanha, etc. incluindo também descendentes de caboverdianos, na Guiné.


Em Cabo Verde, no campo, no mato, é complicado. Porque há: proprietários de terra (há grandes e pequenos proprietários), há rendeiros (ligados em geral aos grandes proprietários), parceiros lavram a terra que não lhes pertence, para depois repartir com o dono o resultado da colheita. Os rendeiros lavram a terra, mas têm que pagar a renda para o dono da terra. E há alguns trabalhadores agrícolas, mas são poucos, não chegam para formar uma classe. Trabalham nas propriedades de outros. Felizmente em certo ponto, e infelizmente noutro, porque houve muita desgraça, os grandes proprietários perderam muito das suas terras, com as crises que houve em Cabo Verde por falta de chuvas, mas principalmente pela má administração portuguesa. Tiveram que hipotecar, quer dizer, entregar ao Banco para o Banco lhes dar dinheiro, mas depois eles não podem pagar e perdem a terra. Então o Banco e Caixa Económica é que são os maiores grandes proprietários na nossa terra hoje. Pequenos proprietários ainda há alguns hoje. Os rendeiros portanto, arrendam a terra ao Banco ou à Caixa Económica, ou a um ou outro proprietário que ainda existe. Quer dizer, este grupo é um grupo de gente que não tem terra. Enquanto na Guiné não podemos dizer a ninguém: vamos lutar para ter terra, em Cabo Verde já é possível dizer a esta gente, vamos lutar porque quem lutar na nossa terra, poderá ter a sua própria terra para cultivar. Esta é que é a diferença fundamental entre o mato na Guiné e o mato em Cabo Verde. Todo este grupo, se trabalharmos bem, todo ele será favorável à luta. Os grandes proprietários serão contra a luta, de certeza. Os pequenos proprietários, uns serão a favor e outros contra, porque são comparáveis à gente da pequena burguesia. Uns a favor, outros contra e outros indecisos. Uns contra porque pensam que queremos tomar a terra e vamos acabar com a propriedade, ele é contra, porque ele está à espera. Uns a favor porque pensam que nós tomamos a terra, vai haver liberdade e podem fazer da sua terra pequenina uma terra grande. Outros na dúvida porque não sabem bem o queremos, podem ganhar qualquer coisa, podem perder, ainda estão mais ou menos bem com o tuga, hesitantes.


Mas outras contradições há, por exemplo na Guiné — há grupos étnicos, as chamadas tribos, que nós chamamos raças. Sabemos quantas contradições houve entre eles, em tempos passados, um passado por vezes não muito longe. Nos anos 30, em Bissau, na área de Bissalanca, no Chão-do-Manjacos. E sabemos que por exemplo, no Oio, em 1954, eu mesmo assisti, contradição grande entre balantas e Oincas. Tudo por causa de ideias antigas que ainda existem na cabeça das pessoas, mas interesses práticos, concretos, ou porque roubaram as vacas, ou porque levaram as badjudas, ou porque lavraram a terra que não lhes pertencia, etc. E que os tugas podem explorar e exploram para provocar conflitos entre a nossa gente. Estas são algumas das contradições que queriamos explicar aos camaradas.


Tanto na Guiné como em Cabo Verde, o nosso objectivo foi eliminar as contradições da melhor maneira, levantar toda a gente para pegarmos num objectivo comum: correr com os colonialistas tugas.


E no quadro da Guiné e Cabo Verde, considerados conjuntamente? Há alguma contradição? Cada um pode pensar bem e ver. A contradição que havia, que pode parecer que havia, era a seguinte: muitos funcionários e empregados coloniais na Guiné são caboverdianos, vários chefes de posto são caboverdianos, e dado que, em Cabo Verde a instrução foi mais desenvolvida, mais possibilidades existem para os caboverdianos conseguirem emprego, do que para os próprios filhos da Guiné. Isso pode parecer que eles (caboverdianos) é que estão a tomar nas suas mãos os interesses do povo da Guiné. Eles é que ganham. Mas se virmos bem, também há filhos da Guiné que estão nas mesmas condições dos caboverdianos, e que nunca houve contradição entre essa gente que está nas cidades e a nossa gente do mato. Na cidade é que há contradição. Contradição entre quem? Entre descendentes da Guiné que queriam ter vida que tinham os caboverdianos (como chefe de posto, que são agentes do colonialismo), contra o nosso povo. Enquanto que, em Cabo Verde, o povo é também explorado, como é explorado na Guiné. E nalguns aspectos muito mais duramente, com fome e com exportação de homens como trabalhadores contratados para S. Tomé e para Angola, como animais, praticamente. Então a contradição que podia existir entre guineenses e caboverdianos é a contradição à busca de emprego, de bons lugares. Por exemplo, um indivíduo que tem 2.° grau ou 3.° ano do liceu na Guiné, vê um caboverdiano que vem e toma um lugar de chefe de posto, que come galinha, cabrito, a quem tiram o chapéu, etc, e ele não conseguiu isso ainda. Nasce uma certa coisa nele. Mas se estudarmos bem o problema, vemos que a tendência geral dessa pequena burguesia guineense é a de viver bem com a pequena burguesia caboverdiana. A tendência geral é a de se entenderem; ao lado dos tugas. E nunca vimos, no mato, por exemplo qualquer contradição entre caboverdianos e guineenses. Nada que possa ter qualquer parecença com a contradição profunda que vimos entre certas raças da Guiné mesmo. Quase todos os camaradas podem ver isso bem.


Portanto, para nós, P. A. I. G. C, para o objectivo da nossa luta, de unidade da Guiné e Cabo Verde, não encontramos tantas dificuldades, do ponto de vista de análise como no caso da unidade na Guiné e unidade em Cabo Verde. Se tomamos só a Guiné, vemos muitas contradições dentro dela. Em Cabo Verde, tomando só Cabo Verde, há muitas contradições. Mas tomando no conjunto, as contradições diminuem. A contradição limita-se a existir apenas entre a pequena burguesia, lá é que havia algumas contradições. E é dessa pequena burguesia que surgem os grupos oportunistas que têm combatido o P. A. I. G. C. Grupos de oportunistas que no primeiro movimento que fizeram já eram ministros disto e daquilo, sentido de carreira, lugar, mais nada.


Claro que para nós o problema da unidade da Guiné e Cabo Verde, não se põe por uma questão de capricho nosso, não é porque Cabral é filho de caboverdiano, nascido em Bafatá, que tem amor grande pelo povo da Guiné, mas também grande amor pelo povo de Cabo Verde. Não é nada por isso, embora seja verdade. Eu vi gente morrer de fome em Cabo Verde e vi gente morrer de açoites na Guiné (com bofetadas, pontapés, trabalho forçado) entendem? Essa é que é a razão da minha revolta. Mas a razão fundamental da luta pela unidade da Guiné e Cabo Verde, é a própria natureza da Guiné e Cabo Verde que nos leva a isso. São os próprios interesses da Guiné e Cabo Verde que nos levam a isso. Qualquer pessoa que não seja ignorante e que estuda os problemas a sério, que conhece a história a sério, que conhece tanto relativamente às raças da nossa terra, tanto na Guiné como em Cabo Verde, como à história colonial, essa pessoa, se tem de facto interesse em que o nosso povo avance para a frente, tem que ser a favor da unidade da Guiné e Cabo Verde. Mas mais, dentro das possibilidades da luta concreta para a nossa terra, na Guiné e em Cabo Verde, qualquer pessoa que quer lutar a sério, como o P. A. I. G. C. conseguiu lutar e está a lutar, para realizar uma coisa, na análise, estudando o problema a fundo, que é o seguinte: não era possível a luta na Guiné, se não fosse junto, unido — P. A. I. G. C. — não era possível a luta em Cabo Verde, se não fosse junto, unidos-P.A.I.G.C. Vocês sabem, camaradas, qual é a prova concreta disso? Por exemplo: não há movimento nenhum que tenha dito: —para nós só filhos da Guiné — e que tenha avançado. Vocês conhecem alguém? Não há movimento em Cabo Verde, só de filhos de Cabo Verde, que tenha avançado, não há nenhum. Isso quer dizer que a nossa análise foi certa, justa, sobretudo se tivermos em vista as perspectivas como entidade económica e política viável em África, capaz de facto de realizar uma vida nova. Claro que todos aqueles que lutam pela unidade africana, entendem que nós somos o único exemplo, com a Tanzânia que resultou da União da Tanganica com Zanzibar, que luta de facto pela unidade africana. Mas não existe um problema verdadeiro de lutar pela unidade da Guiné e Cabo Verde, porque, por natureza, por história, por geografia, por tendência económica, por tudo, até por sangue, a Guiné e Cabo Verde são um só. Só quem for ignorante é que não sabe isso.


O tuga sabia isso muito bem. Carreira, com todos os seus abusos na Guiné, sabia o bem. Mas eles fingem não saber para nos dividirem. A sua esperança era — se Cabo Verde pega na luta, mobilizar os guineenses para combater os caboverdianos que não prestam e que estavam na Guiné como chefes de posto. Se os filhos da Guiné, pegarem na luta, mobilizar os caboverdianos, tanto na Guine como em Cabo Verde para combater duro contra os filhos da Guiné, para não deixarem levantar, para não deixarem ser livres. Ora o nosso Partido, passou-lhe aquela grande rasteira (boló). A maior rasteira da vida dos tugas é essa: Na primeira fornada de gente que foi para a cadeira, havia guineenses e caboverdianos juntos. O tuga espantou-se (mâria). E se repararem bem, vejam: há mutia gente em Bissau que podia falar na Rádio, não nos parece estranho? Podiam falar na Rádio descompor-nos, etc, podiam fazer bons artigos na Rádio dos tugas, mas nenhum faz isso. A Rádio é só Alfa Umarú, Malam Ndjai e não sei quem mais, ou então algum bandido que fugiu, da República da Guiné ou do Senegal, e foi falar em Francês em Bissau. Vocês já viram isso bem? Como é que não há nenhum patrício nosso seja da Guiné ou de Cabo Verde, que foi à escola, que sabe bastante para falar na Rádio e que o faça na nossa Guiné? Não há, porque há muito tempo que o Partido passou a rasteira. O tuga perdeu a confiança nessa gente, duma vez, e essa gente também perdeu a confiança e não se mete nisso, porque não sabe, não sabe o que pode acontecer. Mas os tugas, não há muito tempo, em português, depois de algum tempo, de começar a luta armada, em português e mesmo em crioulo, já afirmavam: «Filhos da Guiné e Cabo Verde vocês são um só, debaixo da bandeira de Portugal.» Vocês nunca ouviram? mas enquanto isso, em mandinga, dizem que os caboverdianos não prestam. Para verem se conseguem manter ainda uma certa divisão. Hoje estão já a acabar com isso, aos poucos. De vez em quando põem um a dizer: «eu sou filho da Guiné, completo, não sou filho de estrangeiro como alguns que nasceram aqui.» Para verem se mantêm uma certa ideia de divisão.


Assim como no começo da luta diziam: «fulas, vocês, com vocês é que vamos ganhar esta guerra, porque vocês é que são os melhores filhos da Guiné», etc. Quando falam em Mandaco, dizem o mesmo. Dizem que os pépeis é que fazem mal aos fulas, que os fulas é que fazem mal aos pépeis, para dividir. Mas já viram que isso não dá nada. No nosso Partido ninguém se dividiu, pelo contrário, cada dia nos unimos mais. Aqui não há pepél, nem fula, nem mandinga, nem filhos de caboverdianos, nada disso. O que há é P. A. I. G. C. e vamos para diante. Os tugas estão desesperados. Então são eles mesmos, por exemplo, que hoje nas suas revistas, como esta, que se 'chama «Ultramar», têm grandes artigos, estudando a questão da Guiné e Cabo Verde, e escrevem: «A Guiné e as Ilhas de Cabo Verde — a sua unidade histórica e populacional». E sabem quem fez este artigo? Carreira. Porque ele conhece de facto muitos problemas de história. E neste artigo ele reuniu todos os documentos que há nos arquivos dos tugas e estudou para onde é que os filhos da Guiné foram, quando foram enviados para Cabo Verde. Para S. Tiago? — Balantas, mandingas, beafadas, etc. Para S. Vicente? Foram fulas, etc. Com relatórios, sobre a chegada deles, etc. No princípio eram contra, mas eles sabiam que nós somos a mesma gente, na Guiné e Cabo Verde.


Quer dizer, tanto do conhecimento da História, da realidade da nossa vida do passado, como do conhecimento dos interesses do nosso povo e da África, tanto na questão de estratégia de luta (porque qualquer pessoa que pensa na luta a sério, sabe que não há independência da Guiné sem a independência de Cabo Verde nem há independência da República da Guiné, nem do Senegal nem da Mauritânia, se eles querem ser países a sério, sem Cabo Verde ser independente, ouvem bem? Não há. Só quem não entende nada de estratégia é que pode pensar que esta África pode ser independente, com Cabo Verde ocupado pelos colonialistas. É impossível. Assim como, vice-versa, não pode haver independência de Cabo Verde a sério, sem a independência da Guiné, e sem a África ser independente a sério) qualquer um que põe o interesse do seu povo acima dos seus próprios interesses — a análise séria dos problemas acima de quaisquer manias ou ambições— só pode chegar a uma conclusão que é a seguinte: a coisa melhor que o P. A. I. G. C. fez, que o grupo daqueles que criaram o P. A. I. G. C. fez, foi estabelecer como base fundamental — Unidade e Luta — Unidade da Guiné, Unidade em Cabo Verde e Unidade da Guiné e Cabo Verde.


Quem ainda não vir isso, verá mais tarde. Mas muitos africanos já começaram a vê-lo. Muitas forças amigas nossas começaram a ver, mas também os nossos inimigos já começaram a vê-lo. A preocupação dos imperialistas hoje, é a seguinte: «Cabral aceita ou não, a independência da Guiné, sem Cabo Verde? Essa é que é a grande preocupação. O P. A. I. G. C, aceita ou não a independência da Guiné sem Cabo Verde? Isto é que o imperialista quer saber e perguntaram-no mesmo. Eu disse-lhe: «Ponha os tugas a perguntar, você não é tuga». Porque eles sabem muito bem, qual é a importância que tem o nosso conjunto. Um dia um dirigente africano disse-nos: vocês são inteligentes (djiro). Perguntamos-lhe porquê e ele disse: «Eu conheço a vossa gente na Guiné e a vossa gente em Cabo Verde. Se vocês conseguirem de facto o que estão a fazer, apesar de uma terra pequenina, vocês, hão-de ser um país forte dentro da África. Vamos a ver, dissemos.


Camaradas, vamos pois para a frente, reforçados pela certeza da nossa razão: a criação do P. A. I. G. C, nas bases que acabo de expor foi a maior realização do nosso povo, para a conquista da liberdade e a construção do seu progresso e felicidade na Guiné e Cabo Verde.


II— REALIDADE


Outro problema que podemos passar a discutir, é o seguinte princípio do nosso Partido: Nós avançamos para a nossa luta seguros da realidade da nossa terra (com os pés fincados na terra). Quer dizer, em nosso entender não é possível fazer uma luta nas nossas condições, não é possível lutar de facto pela independência de um povo, não é possível estabelecer de facto uma luta armada, como a que tivemos que estabelecer na nossa terra, sem conhecermos a sério a nossa realidade e sem partirmos a sério dessa realidade para fazer a luta.


Qual é a nossa realidade, camaradas?


A nossa realidade, como todas as outras realidades, tem aspectos positivos e aspectos negativos, tem forças e tem fraquezas.


Qualquer que seja o lugar onde tenhamos a nossa cabeça, os nossos pés estão fincados no chão da nossa terra, na Guiné e Cabo Verde, na realidade concreta da nossa terra, que é a coisa principal que pode orientar o trabalho do nosso Partido. Há gente no mundo que, na sua opinião, a realidade depende da maneira como o homem a interpreta. A realidade, coisas que se vêem, que se tocam, que se sentem, o mundo que está à volta de cada ser humano, para essa gente, é o resultado daquilo que o homem tem na cabeça. Há outras pessoas que, na sua opinião, a realidade existe e o homem faz parte da realidade. Seja o que for que ele tenha na cabeça, não é isso que vai determinar a realidade, mas a própria realidade que determina o homem. O homem é parte da realidade, .o homem está dentro da realidade e não é aquilo que se tem na cabeça que determina a realidade. Pelo contrário, a própria realidade em que o homem vive é que determina as coisas que o homem tem na sua cabeça.


Os camaradas podem perguntar: Qual é a nossa posição do P. A. I. G. C, em relação a essas duas opiniões? — A nossa opinião é a seguinte: O homem é parte da realidade, a realidade existe independentemente da vontade do homem, e o homem tem, na medida em que ele adquire consciência da realidade, na medida em que a realidade influencia a sua consciência, cria a sua consciência, ele pode adquirir a possibilidade de transformar a realidade a pouco e pouco. Esta é que é a nossa opinião, digamos, o princípio do nosso Partido, sobre as relações entre o homem e a realidade.


Uma coisa muito importante numa luta de libertação nacional é que aqueles que dirigem a luta, nunca devem confundir aquilo que têm na cabeça com a realidade. Pelo contrário, quem dirige uma luta de libertação nacional, deve ter muitas coisas na cabeça, cada dia mais, tanto a partir da própria realidade da sua terra, como da realidade doutras terras, mas ele deve medir, fazer planos e tudo mais, respeitando a realidade, não aquilo que tem na cabeça. Isso é muito importante, e o facto de não o respeitar tem criado muitos problemas na luta de libertação dos povos, principalmente em África.


Eu posso ter a minha opinião sobre vários assuntos, posso ter a minha opinião sobre a forma de organizar a luta, de organizar um Partido, opinião que aprendi, por exemplo, na Europa, na Ãsia, até mesmo talvez noutros países de África, nos livros, em documentos que li, com alguém que me influenciou. Mas eu não posso pretender organizar um Partido, organizar uma luta de acordo com aquilo que tenho na cabeça. Tem que ser de acordo com a realidade concreta da terra.


Podemos dar muitos exemplos. Claro que não podemos pretender, por exemplo, organizar o nosso Partido, de acordo com os partidos da França ou de qualquer país da Europa, ou mesmo da Ásia, com a mesma forma de Partido. Começámos um bocado assim, mas aos poucos tivemos que mudar, para nos adaptarmos à realidade concreta da nossa terra. Mas, outro exemplo, no começo da nossa luta, nós estávamos convencidos de que, se mobilizássemos os trabalhadores de Bissau, de Bolama, de Bafatá, para fazerem greves, para protestarem nas ruas, para reclamarem na Administração, os tugas mudariam, nos dariam a independência. Mas isso não é verdade. Em primeiro lugar, na nossa terra, os trabalhadores não têm tanta força como noutras terras. Não é uma força tão grande do ponto de vista económico, porque na nossa terra é fundamentalmente no campo, que reside a grande força económica. Mas no campo era quase impossível fazer guerras, etc, dadas as condições da situação política do nosso povo, de consciência política do nosso povo, e até de interesses imediatos do nosso povo. Era impossível pôr o nosso povo parar de cultivar aquelas coisas que os colonialistas estavam a explorar. Além disso o tuga, nosso inimigo colonialista, não é como nós, que temos um certo respeito por certas coisas. As greves e às manifestações os tugas responderam caindo em cima de nós para matar todos, para acabar com tudo.


Assim, tínhamos que adaptar a nossa luta a condições diferentes à nossa terra, e não fazer como se fez noutras terras.


E muitas outras coisas mostram claro que é preciso ter em conta de facto a realidade concreta da terra, para fazer a luta. Mesmo na questão da mobilização, preparação de gente, etc, tivemos que considerar o problema na Guiné de uma maneira e em Cabo Verde doutra maneira. Porque na Guiné podemos estar ou na República da Guiné ou no Senegal, ir e vir, etc. Em Cabo Verde já é mais difícil porque está no meio do mar, temos que arranjar um outro processo para garantir melhor a luta, para não haver necessidade de muito vai-vem. E na evolução da luta, mais tarde, quando começarmos a luta armada em Cabo Verde, tem que ser uma luta armada feita de uma maneira um bocado diferente da Guiné. Porque não podemos pôr o problema como, por exemplo, em 1962, na nossa terra, em que os nossos camaradas estavam muito afrontados (fronta) no mato —ainda não tínhamos armas —, e nós demos ordem para saírem todos os quadros. E saíram mais de 200 quadros para evitar muitas desgraças. Até que depois entramos de novo e avançamos com a luta. Em Cabo Verde, não podemos fazer isso, fazer muita gente sair rapidamente.


Temos que considerar em cada caso concreto, a realidade concreta. Mesmo na Guiné, por exemplo, cometemos um erro grave na nossa análise antes da luta, embora tivéssemos tomado em atenção bastante as condições de vida do povo balanta, do povo fula, do povo mandinga, do povo pépel, etc, e qual a sua posição na luta. Tivemos em atenção os pequenos-burgueses, os trabalhadores assalariados, empregados de balcão, empregados do porto, etc, e qual a sua posição na luta, descendentes de caboverdianos e qual a sua posição na luta. Tomámos tudo isso em atenção, mas houve um erro grande que nós cometemos. É que não tomámos bem em consideração a situação dos chefes tradionais, dos régulos (fulas, manjacos) esses dois sobretudo. Não o tomámos bem em atenção, porque partimos do princípio seguinte: eles (os seus grandes) antes lutaram contra os tugas, foram vencidos, portanto, devem ter vontade de lutar outra vez. Mentira, enganámo-nos.


Mesmo nós devemos considerar que aprendemos a fazer a luta à medida em que fomos avançando (no caminho). A luta no litoral da nossa terra, entre os manjacos é outra, no Oio tem que ser doutra maneira. Há muitas diferenças. Por exemplo, os homens grandes mandingas, temos que ver a maneira de lidar com eles, não da mesma maneira que tratamos com os homens grandes balantas. Mas no Gabú já é diferente e tivemos que fazer a luta de uma maneira completamente diferente no Gabú. Se compararmos a luta no Gabú com a luta no Sul da nossa terra, são duas lutas como se fosse de duas terras diferentes.


É preciso realismo, considerar a realidade concreta. Mesmo na questão de certas coisas que estão a avançar aos poucos. No começo os homens não queriam reuniões com as mulheres. Passo a passo, não forçamos, enquanto noutras áreas as mulheres entraram logo nas reuniões, sem problemas. Nós temos que ter consciência da realidade, não só da realidade geral da nossa terra, mas das realidades particulares de cada coisa, para podermos orientar a luta como deve ser. Os responsáveis ou dirigentes que têm esse sentido da realidade em consideração, que não pensam que a verdade é aquilo que têm na cabeça, mas que a verdade é aquilo que está fora da sua cabeça, só esses é que podem orientar bem o seu trabalho de militantes, de responsáveis, numa luta como a nossa. Infelizmente, devemos reconhecer que muitos camaradas tomaram responsabilidades nesta luta, sem considerar esse factor, embora nós sempre tenhamos dito isso, sempre.


Mas a realidade não é nenhuma coisa que existe ela só, por exemplo: o nosso camarada Manuel Nandigna é uma realidade, é um facto real, Manuel Nandigna. Mas ele não pode existir sozinho, ele só não é nada, uma realidade nunca está isolada doutras realidades. Qualquer que seja a realidade que considerarmos no mundo ou na vida, por mais pequena ou por maior que seja, ela faz sempre parte de outra realidade, está integrada noutra realidade, está influenciada por outras realidades, que também têm influência noutras ou doutras realidades. Tanto a nossa terra, Guiné e Cabo Verde, como a nossa luta, fazem parte de uma realidade maior que essa, e é influenciada e influência outras realidades no mundo. Por exemplo, se considerarmos a realidade da Guiné e a realidade de Cabo Verde, primeiramente, existe já uma realidade maior, Guiné e Cabo Verde. Mas essa realidade está dentro da realidade da África Ocidental, com os nossos dois países vizinhos ainda mais perto, claro que podemos apertar a coisa um bocadinho mais, com os nossos dois países vizinhos primeiro, com a África Ocidental depois, e com a realidade da África toda e com a realidade do mundo, embora haja outras realidades entre estas.


Quer dizer, a nossa realidade, para nós, está no centro duma realidade complexa, porque é a que mais nos interessa. Para outras gentes não seria assim, ela estaria noutro lado qualquer, e a realidade central seria a delas. Mas mesmo que a consideremos no centro, a nossa realidade não está isolada, não está só. Em muitas coisas que temos de fazer, temos que pensar antes que estamos integrados noutras realidades. Isso é muito importante para não cometermos erros.


Suponhamos a posição dum corpo do nosso Exército num lado qualquer. Ele não pode agir nunca, como se fosse uma realidade isolada, tem que agir sempre como integrado num Exército do P. A. I. G. C., integrado na luta do povo da Guiné e Cabo Verde. Se agir assim, está a agir bem, se não agir assim, está a agir mal. Um comissário político, por exemplo, de Quinara ou de qualquer outro lado, por exemplo S. João, tem que agir sempre como integrado em Quinara, mas não só em Quinara, no Sul, em todo o Sul, e não só aí, na Guiné inteira, e não só aí, na Guiné e Cabo Verde juntos. Temos que ver em cada momento a parte e o conjunto. Só assim é que podemos agir bem, mas infelizmente a tendência de muitos camaradas é fazer da sua realidade a única realidade que existe, esquecendo-se do resto. A tal ponto que é possível haver, por exemplo, camaradas numa determinada área, que sabem que os camaradas doutra área não têm munições e não são capazes de mobilizar a sua gente para levar as munições, não são capazes disso. Isso mostra a nossa falta de consciência de ver a nossa própria realidade, e como é que estamos integrados numa realidade maior, que nós próprios criámos, mas que não temos ainda consciência dela, como deve ser.


Além disso, temos que contar com a realidade dos outros. Dentro da nossa terra, por exemplo, o trabalho dum comissário político pode ser muito bom, suponhamos em Sara. Mas se no Oio, em Biambi, ou na área de Bafatá, o trabalho político não é bom, o trabalho em Sara não avança tanto. Um corpo do nosso Exército, suponhamos, de Canchungo, ou da área de Nhacra, pode lutar bastante. Atacar os tugas todos os dias, mas se, noutras áreas, outras unidades do nosso Exército, não lutam bastante, o sacrifício e as vitórias de Nhacra ou de Canchungo, não têm o devido valor. Mas ainda há mais, é que nós, na Guiné e Cabo Verde, se a luta na Guiné avançar muito, mas a luta em Cabo Verde não avançar nada, mais dia, menos dia, prejudicamos a luta na Guiné grandemente. Basta dizer o seguinte, do ponto de vista estratégico, não pode haver paz na Guiné, se os tugas tiverem bases aéreas em Cabo Verde, é impossível. Porque com bases aéreas em Cabo Verde, se libertarmos totalmente a Guiné, por exemplo, os tugas podem bombardearnos muito mal, podem conseguir muitos mais aviões, a África do Sul pode dar-lhes uma quantidade grande de aviões, porque a Africa do Sul tem interesses em Cabo Verde. Temos que estudar a possibilidade de levar para a frente estas duas realidades ao mesmo tempo; como uma realidade de conjunto, uma realidade só.


Mas se nós, na Guiné e em Cabo Verde, lutamos muito, e os povos de Angola e Moçambique não lutarem nada, se porventura os tugas puderem tirar todas as tropas de Moçambique e mandar para a nossa terra, camaradas, não sei quando tomaremos a nossa independência, porque os tugas vão morar em todas as nossas tabancas. Serão tantos que poderão morar em todas as tabancas, lavrar o arroz e tudo. Estamos a ver portanto, que a realidade da nossa luta faz parte da realidade da luta das colónias portuguesas, que nós queiramos ou não, isso não é nunca questão de vontade, não que eu decidi isso, não é o Bureau Político do Partido que o decidiu, não foi nenhum de vocês que decidiu. Que nós queiramos ou não, é assim. Essa é que é a força da realidade. Tudo está é no seguinte: termos consciência disso, trabalharmos, para podermos caminhar todos juntos, como deve ser. É a única coisa que pode explicar a política do nosso Partido, a teimosia do nosso Partido com a C. O. N. C. P., quer dizer, com o grupo dos movimentos das colónias portuguesas, juntos. Porque nós sabemos o que é a realidade. Nós mesmos, tivemos uma grande influência na criação da FRELIMO, movimento de Moçambique, porque era preciso lutar em Moçambique e depressa.


Mas nós podemos lutar em todas as colónias portuguesas e até ganhar a nossa independência, mas se a Africa continuar com o racismo na Africa do Sul, com os colonialistas a mandar ainda, directa ou indirectamente, em muitas terras de África, não podemos acreditar numa independência a sério em África. Mais dia menos dia a desgraça virá de novo. Portanto, nós fazemos parte de uma realidade concreta que é a África, lutando contra o imperialismo, contra o racismo, contra o colonialismo. Se não temos consciência disso, podemos cometer muitos erros. Mas mesmo do nosso lado da nossa terra, olhando para a República da Guiné e o Senegal, com Cabo Verde à frente, no meio do mar, tendo em frente a Mauritânia, o Senegal, a Guiné. Nós fazemos um conjunto em que as partes estão dependentes umas das outras. Por exemplo, a nossa luta depende muito da República da Guiné e do Senegal também. Desde o princípio nós realizámos a importância que tinham para nós a República da Guiné e o Senegal. Nós orientamos toda a nossa luta no sentido de avançarmos com eles,de criar condições favoráveis para essa realidade,agir como deve ser. Mas é preciso termos consciência do seguinte: é que tanto a República da Guiné como o Senegal têm consciência de que a nossa realidade também é importante para a sua realidade, e dessa consciência depende a maior ou menor ajuda que eles possam dar. Porque cada um deles deve pensar: — Quem é que amanhã vai mandar naquela terra? Isso é importante para nós ou é contra o nosso interesse? É todo um problema. Mas os tugas têm também a noção clara disso. Ainda há dias, por exemplo, eu fui à Mauritânia, e todos os rádios do mundo disseram que eu tive conversações com o presidente Ould Dadah, que fui muito bem recebido, etc. Imediatamente, os tugas desencadearam uma campanha na sua Rádio, a África do Sul também desencadeou por seu lado outra campanha, dizendo que eu fui à Mauritânia para arranjar uma base para atacar Cabo Verde. E que, há muito tempo já o disseram, que o nosso objectivo é prejudicar o Pacto do Atlântico, avançar para prejudicar o Pacto do Atlântico. Portanto, chegou o momento de perigo em que é preciso o Pacto do Atlântico avançar também para impedir isso, porque andamos a avançar demais na sua área. Vocês vêm portanto como é que todas as realidades têm uma relação. Mas todos nós em África fazemos parte duma realidade — do Mundo — que tem todos os problemas que vocês conhecem, e queiramos ou não, estamos metidos nesses problemas.


Hoje, o homem passeia na Lua, com os pés na Lua, colhendo pedaços do solo da Lua para trazer para a Terra. Parece que isso não tem nada a ver connosco, filhos da Guiné e Cabo Verde, que não é nada connosco. Nós ainda estamos com os pés na lama para tirar os tugas da nossa terra. Mas tem importância para a nossa causa amanhã, uma grande importância e se não estivéssemos nesta luta difícil, deviamos fazer uma festa grande, pelo facto de o homem ter chegado à Lua. Isso é muito importante para o futuro da humanidade, da nossa Terra, deste planeta onde vivemos.


A realidade dos outros tem interesse para nós, portanto. A experiência dos outros tem interesse para nós. Se eu souber que um de vocês saiu por um dado caminho, tropeçou por todos os lados, maguou-se, e chegou todo quebrado, e se eu tiver de ir pelo mesmo caminho, tenho que ter cuidado, porque alguém já conhece a realidade desse caminho e eu conheço a sua experiência. Se houver outro caminho melhor eu procuro segui-lo, mas se não houver, então tenho que apalpar com todo o cuidado, arrastando no chão se for preciso. A experiência dos outros tem grande importância para quem faz uma experiência qualquer. A realidade dos outros tem grande importância para a realidade de cada um. Muita gente não entende isso, pega na sua realidade, com a mania de que vão inventar tudo «Eu não quero fazer o mesmo que os outros fizeram, nada que os outros fizeram». Isso é uma prova de ignorância grande. Se queremos fazer uma coisa na realidade, temos que ver quem é que já fez igual, quem fez ao contrário, para podermos adquirir alguma coisa da sua experiência. Não é para copiar totalmente, porque cada realidade tem os seus problemas próprios e a solução própria para esses problemas.


Mas há muitas coisas que pertencem a muitas realidades juntas. E preciso que a experiência dos outros nos sirva, temos que ser capazes de tirar da experiência de cada um, aquilo que podemos adaptar às nossas condições, para evitar esforços e sacrifícios desnecessários. Isso é muito importante. Claro que dentro da nossa luta é a mesma coisa. Um bom comissário político por exemplo, está a trabalhar, outro comissário político está ao lado, mas não se interessa pelo trabalho do primeiro, não procura conhecer a sua experiência, não procura saber porque é que ele está a trabalhar bem. Vira as costas e vai sozinho fazer o seu trabalho. Um comandante está numa área, outros comandantes estão na mesma área, mesmo de nível mais baixo do que ele, mas não são capazes de trocar impressões com ele, não são capazes de lhe perguntar a maneira de resolver certos problemas, porque ele tem mais experiência, ele já viveu mais a luta. Mas não querem saber. Esses são os destruidores da luta. Claro que numa luta como a nossa, é preciso ligar a realidade com o desenvolvimento da luta. Ontem falámos bastante sobre certas contradições da nossa terra, tanto na Guiné como em Cabo Verde, no plano Social.


Para desenvolvermos a nossa luta tivemos que considerar a realidade geográfica da nossa terra, a realidade histórica da nossa terra, a realidade étnica da nossa terra, quer dizer, de raças, de culturas; a realidade económica, a realidade social da nossa terra, a realidade cultural da nossa terra. E tudo isso, envolvido pela realidade maior da nossa terra, no plano da luta, que é a realidade política, quer dizer: nós estamos sob a dominação colonial portuguesa, tanto na Guiné como em Cabo Verde.


Realidade geográfica


Os camaradas conhecem em geral, a realidade geográfica da nossa terra. Nós somos uma terra pequenina, ao todo cerca de 40 000 km2, incluindo Guiné e Cabo Verde, sendo a Guiné 9 vezes maior que Cabo Verde, que são 10 ilhas, na costa ocidental da Africa, encravado entre 2 países africanos (a Guiné) e Cabo Verde a cerca de 400 milhas da costa. Portanto a nossa realidade é que nós temos uma parte continental e uma parte insular ou ilhas, constituída pelos ilhéus dos Bijagós e ilhas de Cabo Verde, formando ao todo mais de 100 ilhas e ilhéus.


Muita gente hoje, talvez ainda não tenha compreendido a importância que isso tem, mas isso é muito importante para todas as coisas da nossa terra. Desde a defesa da nossa terra, até à economia e riqueza e força da nossa terra. A nossa realidade geográfica ainda, é que a Guiné, na sua quase maioria, não tem nenhuma montanha, nenhuma elevação, (só para os lados do Boé é que tem algumas colinas, com o máximo de 300 metros de altura) e Cabo Verde são -ilhas vulcânicas e montanhosas. Mesmo nesse aspecto vemos que um completa o outro. Uma terra não tem nenhuma montanha e a outra é toda de montanhas. Isso também tem importância, não só na economia, como na vida social, cultural, etc, que podemos encontrar na vida do nosso povo.


Na Guiné, terra cortada por braços de mar, que nós chamamos rios, mas que no fundo não são rios: Farim só é rio para lá de Candjambari; o Geba só é rio de Bambadinca para cima, e por vezes mesmo para lá de Bambadinca há água salgada; Mansoa só é rio depois de Mansoa para cima, já a caminho de Sara, perto de Caroalo; Buba, esse não é rio de lado nenhum, porque até chegarmos a terra seca, é só água salgada; Cumbidjâ, Tombali, são todos braços de mar, a não ser na parte superior com um bocadinho de água doce na época das chuvas, sobretudo o rio de Bedanda que vem a Baiana buscar água doce. O único rio de facto, a sério, na nossa terra, é o Corubal. Esta é uma realidade muito importante para nós, porque se, por um lado, temos muitos portos para entrar na nossa terra, com barcos, por outro lado podem ver o perigo que isso representa para nós. Se a nossa terra fosse toda fechada, com as andanças em que estamos nesta luta, o tuga já estava desesperado porque os quartéis não tinham comida. Mas como eles têm barcos e a nossa gente não ataca bastante os barcos, eles podem usar os braços de mar para levar comida e material aos seus quartéis do interior.


Enquanto, por exemplo, do ponto de vista económico, é muito importante e mesmo bom, ter rios ou braços do mar navegáveis. Isso do ponto de vista do futuro da nossa terra. Para a luta propriamente, podemos ver a importância que teve para nós, considerar todas essas coisas para podermos desenvolver a nossa luta. Se no começo da luta era muito bom haver muitos rios na nossa terra, muito braços de mar, riozinhos, etc, porque assim isolamo-nos, pudemos defendernos sempre dos tugas, criar-lhes dificuldades com terrenos molhados e tudo mais, ter que atravessar os rios, etc, hoje, para nós, já é um bocado mais difícil, porque se Bissau estivesse no Continente, se não houvesse a ilha de Bissau, se não fosse o Corubal, se o rio Mansoa não estivesse do outro lado, já estamos dentro de Bissau, todos os dias dariamos tiros em Bissau como o fazemos em Mansoa, por exemplo. Mas, por isso, agora é favorável aos tugas; assim como é favorável aos tugas o rio de Buba que serve bem para os seus barcos. No Farim é a mesma coisa. Vocês vêem portanto, a importância que tem considerar essa coisa simples que é a realidade geográfica.


E, por exemplo, quem leu os livros de guerrilha lembra-se de certeza, que dizem, que a maior força física que há para a guerrilha, para se poder fazer guerrilha numa terra, são as montanhas. Mas na Guiné não há montanhas. Se nós não ligarmos importância à nossa própria realidade, para analisarmos e chegarmos à conclusão de como agir, nós teriamos dito que na Guiné não se pode fazer guerrilha, porque não há montanhas. Cabo Verde tem montanhas, isso é muito importante, mas que espécie de montanhas é que tem? É preciso ter isso em conta, e, além disso, só as montanhas não bastam. Não são as montanhas que dão tiros, é preciso mobilizar o povo, tudo isso. Na Guiné, por exemplo, temos as ilhas de Bijagós. E porque é que não começamos a luta nas ilhas de Bijagós e começamos do outro lado, na terra firme? É por causa duma outra realidade, a realidade económica.


Em Cabo Verde temos um problema grave. Se Cabo Verde fosse uma ilha só, como Chipre, ou como Cuba, seria mais fácil, mas são 10 ilhas. E então temos de pensar, em qual das ilhas é que vamos começar a luta armada, para ela ter importância de facto? E mesmo a mobilização, em que ilha ou ilhas, é que deviamos começar a mobilização? Tudo isso teve e tem muita importância. Problemas de comunicação, de onde estamos para as ilhas, etc. Tudo isso é consequência da realidade geográfica da nossa terra.


Realidade económica


Outra realidade que temos de considerar é a realidade económica. A nossa realidade económica principal, é que nós somos colónias portuguesas, do ponto de vista económico, falando economicamente, porque ao fim e ao cabo a situação política é uma consequência da situação económica.


Nós, a Guiné e Cabo Verde, somos um povo explorado pelos colonialistas portugueses, o nosso trabalho é explorado pelos colonialistas portugueses. Isso é que é importante. Essa é que é a realidade económica.


Mas nós somos uma terra desenvolvida? Não. Somos atrasados economicamente sem desenvolvimento nenhum, tanto na Gume como em Cabe Verde. Não há indústria a sério, a agricultura é atrasada, a nossa agricultura é do tempo dos nossos avós. As riquezas da nossa terra foram tiradas, sobretudo, do trabalho do homem. Mas os tugas não fizeram nada para desenvolver qualquer riqueza da nossa terra, absolutamente nada. Os nossos portos não valem nada, tanto o de Bissau, como o de S. Vicente. Poderiam ter feito bons portos, mas fizeram uns cais acostáveis que não valem nada. Quando vamos a Dakar e vemos o porto de Dakar, ou mesmo o porto de Conakry, que são bons portos, quanto mais se formos a Abidjan ou a Lagos na Nigéria, podemos ver como é que os franceses e os ingleses fizeram bons portos, grandes portos, onde vinte e tal barcos ou mais podem atracar. E vemos quanto tempo o tuga perdeu a gozar-nos, a tomar, a levar, e a brincar connosco. Não fizeram nada para a nossa terra.


Portanto a nossa realidade económica é essa, e seja para a paz, seja para a guerra, nós somos um povo economicamente atrasado na Guiné e em Cabo Verde, um povo cujo principal meio de vida é a agricultura. Cultivar a terra para tirar o necessário para comer e nem sempre tirar o necessário para comer, como em Cabo Verde, por exemplo. Mesmo na Guiné, nalgumas áreas, se não houver muita chuva, há sempre falta, pelo menos enquanto o fundo não amadurecer. Tantos anos de presença dos tugas e a situação sempre na mesma, atrasados economicamente. Não podemos nem falar de indústria a sério, nem na Guiné, nem em Cabo Verde. Na Guiné temos a chamada fabricazinha de óleo, de descasque de arroz, isso não é uma fábrica, isso é um grande «pilon»; a fabricazinha de preparar borracha (maná) uma pequena fábrica de farinha de peixe nos Bijagós. Em Cabo Verde, 3 fábricas de conserva de peixe, em que os tugas trabalham o tempo que querem, enchem os bolsos de dinheiro, fecham a fábrica e vão descansar. E para conhecerem melhor a pouca vergonha dos tugas, eu lembro-me, por exemplo, que quando eu estava no liceu, a minha mãe foi para Cabo Verde, empregou-se na fábrica de conserva de peixe, porque a costura não dava nada. E sabem quanto é que ela ganhava por hora? Cinco tostões por hora, e, se houvesse muito peixe, podia trabalhar 8 horas por dia, ganhando 4 pesos (escudos). Mas se o peixe fosse pouco (era preciso andar muito para chegar à fábrica) trabalhava uma hora e ganhava cinco tostões.


Economia atrasada portanto, isso é muito importante para uma guerra, camaradas. Vocês vejam: nós somos um povo que não tem fábricas, não podemos tomar as fábricas aos tugas para fazer alguma coisa. Nós temos hoje, vastas áreas libertadas, se houvesse fábricas ali, era bom, talvez pudéssemos fazer tecidos, talvez pudessemos fazer sabão em grande quantidade, em vez do sabãozinho do Vasco. Outras coisas podiamos fazer, se tivéssemos minas, haveria muito mais gente a querer ajudar-nos, mais do que nos ajudam, tanto amigos como inimigos, eles buscariam ajudar-nos se as minas estivessem todas a funcionar, com a certeza de que havia muita bauxite, muito petróleo. Viriam muitos e depressa. E, se o petróleo da nossa terra já tivesse começado a ser explorado, talvez a própria Standard Oil estivesse a nosso favor, contra os tugas. Talvez o Governo Americano fosse a nosso favor, contra os tugas. Talvez até tivesse a coragem de dizer aos tugas: ou vocês param e dão a independência à Guiné já, ou então tiramo-vos toda a ajuda, atacamo-vos na ONU, etc. E porquê? Por causa do seu interesse. Mas como a nossa terra não tem nada desenvolvido, eles pensam que nós somos, um corredor entre as Repúblicas da Guiné e do Senegal, um simples lugar de passagem.


Mas, importante do ponto de vista de guerra como vos disse, é o atraso da nossa economia, até mesmo, as dúvidas sobre as nossas riquezas. Por exemplo, tudo seria diferente se o nosso povo já tivesse conhecimentos bastantes sobre a maneira de trabalhar o ferro, para fazer armas. Há povos que estão a lutar e enquanto uns combatem na frente, outros fazem armas na recta-guarda. Nós não podemos fazer isso, só longas, mas as longas são ineficazes. E se é com longas que vamos ganhar a guerra com os tugas ou contra qualquer colonialista, a nossa luta será muito longa.


Mas se a nossa economia fosse desenvolvida, quer dizer que o nosso povo seria também culturalmente mais forte do ponto de vista moderno, com mais escolas, mais liceus, capaz de trabalhar com morteiros, canhões, e até com aviões. Os comandantes seriam mais capazes de entender todos os problemas de estratégia, de táctica, e poderiam todos trabalhar com mapas. Vemos portanto, o significado que tem lutar num país economicamente atrasado.


Realidade social


Todos vocês conhecem qual é a realidade social da nossa terra, a desgraça da exploração colonialista. Mas não sejamos tão acusadores dos colonialistas. Desgraça também da exploração da nossa gente pela nossa gente. Vocês viram ontem, quando vos falei da estrutura social da nossa terra. Nós somos, de facto, explorados pelos colonialistas na nossa terra, na Guiné e em Cabo Verde. Tanto no comércio em Cabo Verde, como na Guiné, os colonialistas são sempre os que ganham mais até ao fim, porque em Cabo Verde, por exemplo, não há nenhuma empresa comercial, que não esteja ligada a uma empresa em Portugal. Assim como na Guiné, o monopólio de todo o nosso comércio (o nosso não, o seu comércio) era da Gouveia e da Ultramarina, ligados aos Bancos, tudo dos tugas. Mas, camaradas, temos que dizer a verdade. Muito povo de Cabo Verde sofreu, por causa da exploração dos donos das terras, caboverdeanos mesmo. Assim como na Guiné, uma parte do grande sofrimento do nosso povo estava nas mãos da nossa própria gente. Isso não podemos esquecer de maneira nenhuma, para podermos saber o que é que vamos fazer no futuro.


Há então uma realidade concreta para isso. Em Cabo Verde a nossa gente passa miséria. Nos anos que chove muito há fartura, come-se bem, enche-se a barriga e até se pode deitar e descansar um bocado, mas na maior parte do tempo, em que não há chuvas suficientes, há fome. Em Cabo Verde já morreu de fome, mais gente do que aquela que vive lá, hoje, durante estes últimos 50 anos. Contratados para S. Tomé, e transportados como bichos nos porões (se morrem — deita-se ao mar), mandados para Angola. Na Guiné, como sabem existia toda a exploração dos colonialistas: trabalho forçado nas estradas, toda a espécie de vexames, insultos, humilhações. E médicos portugueses que estudaram a situação em Cabo Verde, disseram que uma certeza levaram com eles, segura, na sua cabeça de cientistas, é que toda a gente está numa situação de fome. Se não é fome total é fome específica, quer dizer falta de certos elementos que são precisos para o corpo humano viver bem. Essa fome específica existe também na Guiné. Na Guiné quase toda a gente tem paludismo, se formos agora fazer análises a todos os camaradas que aqui estão, quase todos têm bichos na barriga. Há lepra em quantidade, doenças de todo o género.


Desgraça social do nosso povo, a qual fez do nosso povo, um povo fraco do ponto de vista científico, sanitário. Um homem que come quase só arroz, não pode ter a mesma resistência que um homem que come arroz, carne, leite, ovos e tudo o mais. É verdade que, quando um estrangeiro vem à nossa terra e anda com os nossos camaradas no mato, ele fica para trás. Isso é outra coisa. Mas do ponto de vista de resistência da vida, na nossa terra uma pessoa com 30 anos já começa a envelhecer. Na nossa terra é raro encontrar velhos, velhos de cabelos brancos, barba. A média de vida na nossa terra, na Guiné ou em Cabo Verde, é de 30 anos. A esperança de vida, a nossa esperança de vida é de 30 anos, quem passa os trinta já tem sorte. Pois a esperança de vida noutras terras onde se come bem, se bebe bem (não falo de se embebedar), como deve ser é de 60 anos 67 anos e cada ano sobe mais. De qualquer maneira é mais agradável. Se, quando alguém nasce, tivesse a certeza de que ia viver 70 anos, eu tinha tempo de fazer alguma coisa. Mas em trinta anos, que é que se pode fazer? Isso é por falta de alimentação como deve ser, falta de tratamento de saúde como deve ser, viver na miséria é que faz isso, camaradas. Essa é que é a condição social da nossa terra. Abusos dos tugas, abusos daqueles filhos da nossa terra que abusam nos outros, miséria, sofrimentos, doenças, fome e vida curta ainda por cima. Condição difícil, muito difícil, camaradas.


Realidade cultural


E do ponto de vista cultural, se é verdade que em Cabo Verde as condições são um bocadinho melhores que na Guiné, porque em Cabo Verde, dadas as condições em que a população se desenvolveu, nunca se pôs a questão de indígena e não indígena e então em princípio qualquer filho de Cabo Verde pode ir à escola (escola oficial), não é menos verdade que, no total, havia muito menos escolas do que na Guiné.


Há certas coisas que os camaradas não sabem e que lhes podem fazer confusão, mas a verdade é que em Cabo Verde mais gente aprendeu a ler e escrever do que na Guiné, no tempo dos colonialistas. Mas o nível de analfabetismo em Cabo Verde, contrariamente à vaidade de algum cabo-verdiano que tem a mania que sabe muito, é de 85 % de analfabetos. Os tugas gabavam-se, dizendo que em Cabo Verde não há analfabetos. Mentira. Foi estudado, 85 % de analfabetos. Mas daqueles que sabem ler, eu fiz a experiência em 1949, quando fui passar as férias lá, gente com o 2.° grau no mato, em Godim ou em Santa Catarina, por exemplo, dá-se-lhes o jornal para lerem, fizeram o 2.° grau já havia 4 ou 5 anos, não sabiam ler nada porque lêm, mas não sabem o que estão a ler. Esses também são analfabetos, analfabetos que conhecem as letras, Há muita gente assim e até, às vezes, doutores. Mas é preciso perder muitas ilusões.


Na Guiné, 97 % da população não podia ir à escola. A escola era só para os assimilados, ou filhos de assimilados, vocês conhecem a história toda, não vou contá-la outra vez. Mas é uma, desgraça que o tuga pôs na nossa terra, não deixar os nossos filhos avançarem, aprender, entender a realidade da nossa vida, da nossa terra, da nossa sociedade, entender a realidade da Africa, do mundo de hoje. Isso é o obstáculo grande para o desenvolvimento da nossa luta, camaradas, obstáculo grande, dificuldade enorme para o desenvolvimento da nossa luta. Ainda hoje eu vos disse que o povo fula emigrou através da Africa, o povo mandinga fez e aconteceu, mas muitos de vocês não o sabiam, e muitos camaradas, por exemplo, um beafada que se chama Malam qualquer coisa, ele não sabe que nos tempos antigos o nome Malam, Braima e outros, não eram nomes beafadas. O que se passou com os beafadas passa-se com muita gente da nossa terra. Por exemplo, Vasco Salvador Correia. Antigamente, a sua gente não se chamava nem Vasco, nem Salvador quanto mais Correia. Quer dizer, os mandingas, dominando os povos da nossa terra fizeram assimilação (não foram os tugas os primeiros a querer assimilar na nossa terra) e então os dominados passaram a adoptar os nomes mandingas. Assim como os mandingas de hoje, não tinham os mesmos nomes naquela época. Os nomes antigos dos fulas não eram Mamadu, nem nada disso. Isso é tudo copiado do árabe, Mamadu quer dizer Maomé, Iussufe, quer dizer José, etc, Mariama é Maria, nomes de semitas.


A realidade cultural da nossa terra, em Cabo Verde, é o resultado (pondo agora a questão dos colonialistas que não nos deixaram avançar muito) de que os colonialistas deixaram estudar os caboverdianos na medida em que precisavam de gente para fazer agentes do colonialismo, para servir de agentes, como utilizaram os indianos. Como os ingleses também utilizaram os indianos na colonização, como os franceses utilizavam os daomeanos na colonização, assim também os portugueses utilizaram os caboverdianos, instruindo um certo número. Mas a certa altura barraram o caminho de uma vez, nem mais do que um certo número de escolas primárias, nem mais do que um liceu, um liceu apenas, que aliás Vieira Machado, antigo ministro do «Ultramar», queria transformar em escola de pescadores e carpinteiros na altura em que eu entrei para o liceu. Estive três meses sem frequentar o liceu, porque o fecharam, para eles bastava, não era preciso mais. A partir de então, só escolas para pescadores e carpinteiros. A população é que se levantou, protestou, e o liceu começou a funcionar de novo.


Mas agora a realidade da nossa própria situação cultural em Cabo Verde, é a seguinte: é a transplantação da realidade da cultura africana para as ilhas. Depois, o contacto dessa cultura africana, em grande parte, com outras culturas de fora, vindas de Portugal ou doutros lados. Muita gente pensa que Cabo Verde é a Praia ou S. Vicente. Mas quem conhece o mato em Cabo Verde, sente que Cabo Verde é uma realidade africana tão palpitante como qualquer outro pedaço de África. A cultura do povo de Cabo Verde é africaníssima: nas crenças é idêntico — há em Santiago o «polon» que alguns ainda consideram como árvore sagrada. Não há muitos «polon» por causa das muitas secas, secaram. Mas os que existem ainda, ninguém toca neles. Além disso, a feitiçaria («morundade») há muito disso. «Almas» que aparecem de noite, gente que voa, que faz, que acontece, como interpretação da realidade da vida que é igualzinho a Africa. Deitar sortes então, nem falemos.


Em Cabo Verde houve encontro de vários grupos étnicos e houve uma fusão da sua cultura, mas até aos anos 40, por exemplo, havia ainda certos grupos que mantinham certas características próprias. Por exemplo, grupos que se fixaram para os lados da Praia, em Santiago, tinham a sua tabanca, que chamavam mesmo tabanca, as festas que faziam eram de um dado tipo, enquanto noutros lados, na Achada St.º António, por exemplo, já é outro tipo de tabanca, quanto mais a gente de Santa Catarina, dos Picos, etc.


Na Guiné a cultura do nosso povo é o produto de muitas culturas da Africa, cada um tem a sua cultura própria, os balantas têm a sua cultura, etc, mas todos têm um fundo igual de cultura, a sua interpretação do mundo e as suas relações na sociedade. E sabemos que embora haja populações muçulmanas, no fundo eles também são animistas, como os balantas e os outros. Acreditam em Alá, mas também acreditam no 'iran' e nos 'djambacosses'. Têm Alcorão, mas também têm o seu 'gri-gri' no braço e outras coisas. E o sucesso do Islamismo na nossa terra, como na África em geral, é que o Islam é capaz de compreender isso, de aceitar a cultura dos outros, enquanto os católicos querem acabar com isso tudo rapidamente só para crerem na Virgem Maria, na nossa Senhora de Fátima e em Deus Nosso Senhor Jesus Cristo.


A realidade cultural da nossa terra é essa. Mas devemos pensar bem na nossa cultura, a nossa cultura é ditada peia nossa condição económica, pela nossa situação de subdesenvolvimento económico, de atraso económico. Temos que gostar muito da nossa cultura africana, nós queremo-la muito, as nossas danças, as nossas cantigas, a nossa maneira de fazer estátuas, canoas, tudo isso é magnífico, os nossos panos, e tudo o mais, mas se esperarmos só pelos nossos panos para vestirmos a nossa gente toda, estamos mal. Temos que ser realistas camaradas. A nossa terra é muito linda, mas se vamos lutar para deixar a nossa terra como está, estamos mal.


Há muita gente que pensa que ser africano é saber sentar-se no chão e comer com a mão. Sim, isso é certo africano, mas todos os povos no Mundo se sentaram já no chão e comeram com a mão. É que há muita gente que pensa que só os africanos é que comem com a mão. Não, todos os árabes da Africa do Norte, mas mesmo antes de serem africanos, antes de virem para a África (eles vieram do Oriente para a África) eles comiam com a mão, sentados no chão. Vão ver a Arábia Saudita, comem com a mão. Sentados no chão, e com uma mão na comida e a outra nos pés. Temos que ter consciência das nossas coisas, temos que respeitar aquelas coisas nossas que têm valor, que são boas para o futuro da nossa terra, para o nosso povo avançar. Mas não houve ainda nenhum povo no mundo que avançasse, sentado no chão. Não há, camaradas. Não há povo no Mundo que avançasse a sério, comendo com a mão. O rei da Arábia Saudita ou de outros povos como esse, querem que o seu povo se sente no chão e coma com a mão eternamente, e porquê? Porque ele senta-se numa boa mesa, num bom carro e passeia pela Europa descansadamente enquanto o seu povo está a sofrer.


Ninguém pense que é mais africano do que outro, mesmo do que algum branco que defende os interesses da África, porque ele sabe hoje comer melhor com a mão, fazer bem a bola de arroz e atirá-la para a boca. Os tugas, quando eram visigodos ainda, ou os Suecos, que nos ajudam hoje, quando eles eram ainda Vikings, também comiam com a mão, camaradas. Grandes bolas lá da sua farinha para meterem na boca com a mão. Mas se vocês virem um filme sobre os Vikings, dos tempos antigos, vocês podem vê-los com grandes chifres na cabeça, mezinhos nos braços para irem para a guerra. E não iam para a guerra sem os seus grandes chifres na cabeça. Ninguém pense que ser africano é ter chifres pegados ao peito, é ter mezinho na cintura. Esses são os indivíduos que ainda não compreenderam bem qual a relação que existe entre o homem e a natureza. Os tugas fizeram isso, os franceses fizeram quando eram francos, normandos, etc. Os ingleses fizeram-no quando eram anglos e saxões, viajando pelos mares fora em canoas, grandes canoas como as dos Bijagós.


Os russos fizeram-no, quando eram tribos eslavas atrasadas, etc. Na Ásia e na América do Sul então, nunca mais acabamos, porque há gente ainda em pior situação do que nós, quanto à vida cultural que levam.


Temos que ter coragem para dizer isso claro. Ninguém pense que a cultura de Africa, o que é verdadeiramente africano e que portanto temos de conservar para toda a vida, para sermos africanos, e a sua fraqueza diante da natureza, porque qualquer povo do mundo em qualquer estado que esteja já passou por essas fraquezas, ou há-de passar. Há gente que ainda nem chegou aí. Há gente no mundo que a sua vida é subir às árvores, comer e dormir, mais nada, não, mais nada ainda. E esses então, quantas crenças têm ainda. Nós não podemos convencer-nos de que ser africano é pensar que o relâmpago é a fúria de Deus (Deus qui panha raiba). Não podemos acreditar que ser africano, é pensar que o homem não pode dominar as cheias dos rios. Quem dirige uma luta como a nossa, quem tem a responsabilidade de uma luta como a nossa tem que entender, pouco a pouco, que a realidade concreta é essa.


A nossa luta é baseada na nossa cultura, porque a cultura é fruto da história e ela é uma força. Mas a nossa cultura é cheia de fraqueza diante da natureza. É preciso saber isso. E podemos dizer mais, por exemplo, há certas danças nossas, que mostram as relações do homem com a floresta, em que aparece gente vestida de palha, com ar de pássaros, outros como grandes pássaros, com um grande bico, gente que corre com medo. Podemos fazer muitas danças com isso, podemos fazer tudo isso, mas temos que ultrapassar isso, não fiquemos só por. aí. Podemos guardar a lembrança de todas essas coisas, para desenvolver a nossa arte, a nossa cultura, que apresentamos aos outros. Mas como já ultrapassamos isso, sabemos que na floresta, no mato, nós é que mandamos, nós os homens, não é nenhum bicho, nem nenhum espírito que está lá metido. Isso é muito importante, camaradas. Mas a realidade cultural da nossa terra é essa. Vários camaradas que estão aqui sentados têm o 'mezinho' na cintura, convencidos de que isso pode evitar-lhes as balas dos tugas. Mas nenhum de vocês pode dizer-me que, qualquer dos camaradas que morreram já na nossa luta não tinha mezinho na cintura. Todos tinham. Somente, na nossa luta tivemos que respeitar porque partimos da nossa realidade, não podíamos de maneira nenhuma dizer aos camaradas para tirarem o mezinho, caso contrário estaríamos a tratar os camaradas como se fossem alemães. Os alemães, há muitos anos atrás, não iam à guerra sem mezinho, mas hoje não vão à guerra com mezinho; ainda há alguns que vão com a imagem de Nossa Senhora de Fátima dentro de um livrinho; é o seu mezinho; a Bíblia, é o seu mezinho e, antes de começar os combates, benzem-se. Os tugas vêm com a sua grande cruz no peito e no momento em que o combate começa, beijam-na; é o seu mezinho. E há ainda os que fiam nos nossos próprios mezinhos.


Esse é que é o nosso nível cultural, em relação à realidade concreta que é a guerra. Por isso nós aceitamo-la, mas que ninguém pense que a direcção da luta acredita que, se usarmos mezinho na cintura, não morremos. Não morremos na guerra se não fizermos a guerra, ou se não atacarmos o inimigo em posição de fraqueza, morremos de certeza, não há safa, camaradas. Vocês podem contar-me .uma série de casos que têm na cabeça : — O Cabral não sabe, nós vimos casos em que o mezinho é que safou os camaradas da morte, as balas vieram e voltaram para trás em ricochete. Vocês podem dizer isso camaradas, mas èu tenho esperança que os filhos dos nossos filhos, quando ouvirem isso, ficarão contentes porque o P. A. I. G. C, foi capaz de fazer a luta de acordo com a realidade da sua terra, mas hão-de dizer: os nossos pais lutaram muito, mas acreditam em coisas esquisitas. Esta conversa talvez não seja para vocês agora, estou a faiar para o futuro, mas eu tenho a certeza de que a maioria entende o que penso dizer, e que tenho razão.


Isso de mezinho é uma característica da África. Até advogados, que eu conheço, em outros países africanos, andam com o seu mezinho na cintura (rabada) e, quando vão defender causas no Tribunal, põem o seu grande mezinho «nunca se sabe se posso ganhar com isso». Mas até camaradas de outra colónia portuguesa mandaram-nos pedir, porque a nossa luta avançou muito, se havia algum 'gri-gri' bom que lhe mandássemos também.


Claro que nessas coisas de 'gri-gri', os pobres coitados, não podem ter muito 'gri-gri', os combatentes não podem arranjar muitos 'gri-gris'. Mas os responsáveis, comandantes, membros da direcção do Partido, esses trazem os seus 'gri--gris' até em sacos, atrás, com gente para carregar. «Qual é o teu trabalho ? — Eu carrego mezinhos». Se é uma acção importante, o chefe escolhe um certo tipo de mezinho, outro tipo e outro. Se a acção é diferente, o mezinho já é de outro tipo, mudam, como quem muda de camisa.


Eu só chamo a atenção dos camaradas para o facto de sentirem que isso, se por um lado é uma força, por outro lado é uma fraqueza. E força, porque um camarada que põe o seu mezinho, ele acredita em alguma coisa, além das palavras do Partido, e vai com mais coragem, não podemos esquecer isso. É uma fraqueza, porque ele pode cometer muitos erros, fiado nisso. Num país africano por exemplo, os combatentes cometeram erros graves: juntaram-se muitos, 500 homens, fizeram uma grande cerimónia (matar vacas e tirar as tripas para fazer quebrantes, outros bebendo sangue, etc.) e avançaram para os tugas, 500 homens só com terçados. Os tugas sentados, rindo e esperando. A cinquenta metros, quarenta, abrem as metralhadoras. Morrem todos. É uma desgraça, a fraqueza de acreditar em mezinhos.


Mas, temos camaradas nossos, que sabemos que morreram da seguinte maneira: chega um avião bombardeia, mas não acontece nada. De repente, o camarada lembra-se que não tem o mezinho consigo, levanta-se, corre a casa, apanha o mezinho e no regresso é metralhado e morre com o seu mezinho na mão.


Talvez algum de vocês conheça mais casos desses. Mas quantos de vocês são capazes de pensar o seguinte: que brincadeira é essa, como é que isso pode ser ?


A verdade é que para nós a luta tem o seu aspecto de fraqueza. Muitos de nós acreditaram que não nos devíamos instalar em certos matos porque está lá o «iram». Mas hoje, graças aos muitos «irans» da nossa terra, a nossa gente entendeu e o «iram» entendeu, que o mato é do homem, e ninguém mais tem medo do mato. Até o mato do Cobiana, já lá estivemos bem, tanto mais que aquele «iram» é nacionalista, ele «disse» claramente que os tugas têm de se ir embora, que não têm nada que fazer na nossa terra.


Mas os camaradas devem compreender que tudo isso é um obstáculo para a luta, também. Mas mais nada, muitos dos camaradas que começaram, esta vida e que pegaram teso, muitos camaradas meus, que eu estimo muito e que passaram muito tempo comigo, se naquela altura eu lhes dissesse: vai ao interior, dentro, pega teso no trabalho de mobilização do povo, mas se o Secuna Baio ou qualquer outro mouro lhe dissesse: não vás, deitei sorte e vi muitas coisas más para ti, se vais ao interior do país.


Talvez eles se matassem, com vergonha do Cabral, mas não iriam. Houve camaradas que não fizeram emboscadas só porque um «mouro» lhes contou que não fizessem emboscadas porque algum havia de morrer. E os camaradas habituaram-se tanto a que os «homens grandes» mandassem neles, decidissem por eles, sobre a guerra, que depois são os homens grandes que vieram queixar-se: «Cabral o que é que se passa, os rapazes agora não nos obedecem nada, vão atacar sem nos consultar». Eu respondi: «Homem grande, olha, se alguma vez os rapazes não atacaram sem te consultar, eu nunca lhes disse nada, e hoje também não lhes digo nada. Mas eu nunca te tomei como comandante, eles é que são os comandantes. Dantes eles consultavam-te, é lá com eles, hoje já não querem? Isso não é comigo». O «homem grande» ficou um bocado aborrecido mas como não é burro, é muito esperto, porque ao fim e ao cabo, esses é que eram os intelectuais da nossa sociedade, da nossa sociedade genuína, verdadeira, eles é que viam as coisas claras, que entendiam tudo (as nossas forças e as nossas fraquezas) mudam logo um bocadinho, adaptam-se à nova situação.


O nosso Partido, no plano cultural, procurou tirar o maior efeito possível, o maior rendimento possível da nossa realidade cultural. Quer não proibindo aquilo que é possível não proibir sem prejudicar a luta, quer criando no espírito dos camaradas novas ideias, nova maneira de ver a realidade. E quer ainda, aproveitando o melhor possível todos aqueles que já tinham um pouco mais de instrução, tanto para dirigir a própria luta como para os mandar estudar para preparar quadros para o futuro. Pode parecer que tudo isso é muito simples, mas é difícil, é muito complicado chegar a uma solução como essa.


Realidade politica


A realidade política da nossa terra é esta realidade maior que todos nós conhecemos bem, é o facto de que nós éramos uma colónia portuguesa. O nosso povo, nem na Guiné nem em Cabo Verde, não podia mandar em si mesmo. Os tugas é que mandavam, mesmo que pusessem um administrador preto, nem que o governador mesmo fosse preto — coisa que só Honório Barreto teve a sorte ou desgraça de ser —, a verdade é que o tuga que mandava na nossa terra, é o colonialismo português que mandava na nossa terra. É essa realidade maior, que criou o conflito entre nós e os tugas, a exploração do nosso povo, coberta pela política de Portugal. Isso é que gerou a nossa luta fundamentalmente.


A nossa luta cresceu tanto que temos que aproveitar para transformar até a realidade geográfica, na medida em que pudermos. Parece que não, mas sim. Porque, quando fizermos barragens, pontes, etc, mudaremos a paisagem geográfica da nossa terra, vamos fazer uma geografia humana nova, que estamos a criar na nossa terra. Quando transformarmos os ilhéus de Bijagós completamente, quando fizermos de Cabo Verde um centro magnífico para turismo mundial, por exemplo, já será uma nova realidade geográfica que criamos. Os barcos que passam agora ao largo, passarão a parar lá. Mas temos que transformar, através desta luta, a realidade económica da nossa terra. Vamos acabar com a exploração dos tugas, mas vamos acabar com a exploração do nosso povo pela nossa própria gente. E temos que desenvolver a nessa terra, fazêla avançar o mais possível. Esta é que é a nossa luta: realidade social, realidade cultural, tudo vai mudar. E há uma realidade política nova que surgiu na nossa terra, e que é a seguinte: nós mandamos em nós mesmos.


Claro que a nossa realidade tem forças e fraquezas, como já vos mostrei. Porque, por exemplo o facto de não termos grande desenvolvimento económico é uma fraqueza grande, mas também é uma força, porque se a nossa terra tivesse grandes minas, grandes fábricas, etc, o imperialista já teria entrado na guerra mais depressa e com mais força. Talvez tivéssemos que lutar não só contra os tugas, mas contra outros imperialistas também. Assim, pelo menos, estamos mais tranquilos, só mato, deserto.


Mas não nos deixemos adormecer. Claro que a realidade social da nossa terra — na nossa terra não há, por exemplo, grandes burgueses, grandes capitalistas — isso é bom para a nossa luta, porque não temos o problema de ter de combater aqueles que exploram demasiado a nossa gente. Mas também é uma fraqueza, porque, nalgumas terras, alguns capitalistas da própria terra, pegaram duro na luta, com todos os seus meios, com todo o seu dinheiro, etc, e ajudaram muito. Como em Cuba, na China, em outros países, em que muitos capitalistas da terra fizeram a revolução a sério. E alguns dirigentes são filhos de grandes capitalistas.


Uma outra vantagem é que na nossa terra não há muitas diferenças de classes, diferenças muito grandes, e que as classes mais abastadas, que tem mais meios são pequenas em número, muito pouca gente. Isso evita-nos muitos problemas de divisão do ponto de vista social. Mas na realidade social da nossa terra, ontem falámos nisso, há a questão de tribos, de grupos étnicos, ou de raças, é uma fraqueza grande, porque, mesmo nesta sala, pode haver gente ainda que é capaz de pensar: eu sou pepel, eu sou mancanha e o mancanha não falta ao seu companheiro, eu sou mandinga. Isso é uma fraqueza grande, camaradas, grande fraqueza da nossa luta. E seria muito mau se de facto deixássemos isso avançar, se de facto nós não fôssemos capazes de eliminar tudo isso no caminho da luta.


Quero chamar a atenção dos camaradas para este facto, para pensarem bem e verem o que é que se passa na Africa onde há problemas de tribos, o chamado tribalismo, guerras entre raças, etc, não é o povo que inventa essas coisas, o povo não se lembra disso, porque o povo segue a realidade com muito realismo, defende os seus interesses. A verdade é a seguinte: é que o tempo de tribos em África já passou. Houve um tempo em que as tribos lutavam umas com as outras por causa da terra, para tomarem a terra para ter pasto para o.seu gado, etc, para encontrarem melhores terras, por causa dos filhos, das mulheres, para poderem ver a sua força, mas isso já passou.


Desde que os nossos povos de África conseguiram criar Estados, mesmo Estados de tipo militar, desde que os povos de África, conseguiram juntar gente de diversas tribos para fazerem um trabalho, para servir uma classe, as tribos começaram a acabar. E quando os tugas e outros colonialistas vieram, acabaram com isso de uma vez, mas procuram conservar a parte de cima, quer dizer aqueles que mandavam nas tribos, ou nos grupos, para servirem de intermediários para os ajudarem a mandar. Hoje, o nosso povo, oinca ou balanta, ou outro, pode ter ainda na cabeça, lembranças antigas — «de facto nós e os mandingas não nos entendíamos muito bem» — mas se não houver ninguém para os incitar, eles já não vão nisso. O mesmo acontece com ibos e yorubas na Nigéria ou Bacongos, e outras gentes do Congo. É preciso que alguém incite, que alguém diga: vamos mesmo pegar, eles estão com manias, mas os mandingas é que vão fazer.


Gente que até tem desprezo pelas suas tribos, gente que já não quer saber disso para nada, que estudou nas Universidades, em Lisboa, ou Oxford ou mesmo na capital da sua própria terra, mas que hoje, por causa da África estar a ir para a independência, quer mandar, quer ser presidente da República, quer ser ministro, para poder explorar o seu próprio povo. Então, como isso não lhes foi possível por qualquer razão, lembram-se: — «eu sou lunda, filho de lundas, descendente do rei lunda. Povo lunda, levanta-te porque os macongos querem comer-nos». Mas não é nada por causa de lundas ou bacongos, é por causa de ser presidente, de ter todos os diamantes, todo o ouro, todas essas coisas boas na sua mão, para poderem fazer o que querem, para viverem bem, terem todas as mulheres que quiserem na Africa ou na Europa; para poderem passear pela Europa, serem recebidos como presidentes, para se vestirem caro, de fraque ou grandes bubus, para fingirem que são africanos. Mentiras, não são africanos nada. São lacaios ou cachorros dos brancos.


O mesmo acontece na Nigéria e a mesma coisa entre nós, de qualquer maneira que isso apareça entre nós, trata-se de gente que quer servir apenas a sua ambição. Quer dizer, camaradas, que temos que reconhecer que só a ambição é que pode defender o ponto de vista de divisão, seja que divisão for. Por exemplo: os tugas fizeram-nos muito mal, mas não podemos considerar tugas todos os brancos. Só um fulano ambicioso no nosso meio, é que é capaz de dizer: nós não podemos aceitar a ajuda de fulano de tal, em Bissau, que é branco, ou de fulano de tal em Catio que é branco. Como? Não pode ser. Se queremos servir a nossa terra, o nosso Partido, o nosso povo, temos que aceitar a ajuda de toda a gente. Mas ele é amigo, é um companheiro. Quem quer servir só a sua barriga, arranjar um bom lugar, tem que ver: — se ele é mesmo esperto, burro, talvez o possamos aceitar, mas para lhe pormos os pés em cima. Mas se não for assim, o melhor é ele ir-se embora senão ainda me toma o meu lugar. Isso não, camaradas.


Esta é que é a razão por que temos necessidade de conhecer a realidade da nossa terra, realidade em todos os aspectos, de todas as maneiras, para podermos saber orientar a luta, quer no geral, quer no particular. E temos que reconhecer que na condição concreta da realidade da nossa terra na Guiné e Cabo Verde, é preciso muita coragem para responder com acerto a esta pergunta: — nós podíamos de facto fazer uma guerra como esta? Claro que nós podemos dizer que sim, porque estamos a fazê-la. Mas no começo era difícil. Desde aquele homem que perguntou: — «mas como é que vamos lutar contra o tuga, se nós nem roupa temos, se nós não sabemos ler nem escrever? A guerra do tuga é de Comandantes, Majores, etc, formados na Universidade, em altas Academias, como é que vamos lutar contra eles? Nós não temos nada, onde é que vamos arranjar meios para lutar, como é que isso pode ser?»


Aí é que temos que integrar a nossa cabeça, para respondermos, sim, temos que pôr a nossa realidade diante da realidade do mundo de hoje. E podemos dizer: nós estávamos todos divididos, cada grupo para o seu lado, mas na realidade do mundo de hoje, muita gente da nossa terra é capaz de levar o nosso povo a entender que nós, balantas, pepéis, mandingas, filhos de caboverdianos, etc, podemos estar unidos, avançar juntos, sem perdermos a cabeça. E mostrámos que isso é de facto possível. E na realidade do mundo de hoje, há uma África nova que surgiu, para a independência, para o progresso, e temos que contar com ela. Mas há um campo socialista que surgiu desde a Revolução de Outubro, que pôs a seguinte conversa na frente de tudo: a autodeterminação para todos os povos, cada. povo deve escolher o seu destino, tê-lo na sua mão. Há ainda as leis internacionais estabelecidas nas Nações Unidas.


Nós devemos contar com tudo isso, como a realidade do mundo inteiro, a realidade das guerras que houve no mundo, com todos os problemas que elas trouxeram, para podermos pôr coragem para avançarmos com a luta na nossa terra. Porque se nos colocássemos apenas diante de uma só realidade, dentro da nossa tabanca, para pensarmos como é que vamos lutar com o tuga, era impossível, não havia possibilidade.


Vêem portanto, a importância que tem, conhecermos a nossa realidade e conhecermos também todas as realidades, para podermos saber onde está a nossa, entre as outras, para podermos saber qual é a nossa força total, e qual a nossa fraqueza total. Só assim é que podemos concretamente ver o seguinte: nós podíamos lutar, podíamos fazer a nossa própria luta, fazer muitos sacrifícios, com os nossos próprios meios, mas isso não chegava para fazermos a luta. Não podia chegar. Era preciso que o nosso Partido fosse capaz de aproveitar outras condições favoráveis do mundo, da Africa, para fazermos a nossa luta avançar. E nós aproveitámos cada dia mais. Foi por isso que pudemos ter armas, munições, roupas, medicamentos, hospitais., etc, que na nossa terra não podíamos ter. Exigindo de nós próprios sacrifício e o esforço que podemos dar, mas contando também com a realidade do mundo de hoje, com forças que possam vir de fora. Essa é a importância que tem para a nossa luta a ajuda de outros países, ajuda que para nós só tem uma condição: não se põe condição nenhuma e nós garantimos que toda a ajuda que recebemos, a pomos ao serviço do nosso Partido e do nosso povo.


E podemos dizer que não há nenhum movimento de libertação no mundo que tenha tirado mais proveito da ajuda que lhe têm dado do que o nosso Partido. Nós todos sabemos da admiração que toda a gente tem quando vê as nossas coisas, tanto fora como dentro da nossa terra, e quando vê como é que nós de facto temos posto tudo o que temos obtido, ao serviço da nossa luta, ao serviço do nosso povo. E temos procurado pôr ao serviço do Partido, como deve ser, a cabeça de todos os camaradas. Se não dão tudo é porque não querem. Não é falta de exemplo, nem falta de empurrar. Nós temos procurado melhorá-los cada dia mais, utilizando directamente a ajuda que recebemos para formar quadros. Temos necessidade, portanto, para transformar a nossa realidade, da nossa própria experiência, da nossa própria força, do nosso próprio sacrifício e esforço, mas também temos necessidade de conhecer a experiência dos outros, da ajuda dos outros e de utilizar como deve ser essa ajuda.


Nesse conjunto das nossas forças com as forças que nos podem vir de fora, podemos transformar de facto a realidade da nossa terra, e já transformámos muito, porque hoje, na nossa terra, na maior parte da nossa terra o tuga não manda. Na Guiné, o tuga está aflito (à nora) numa guerra colonial que ele sabe que está perdida, e em Cabo Verde, a coisa já começou a ferver, ele sente-se mal, a ponto de chamar os seus amigos para virem ajudar, porque a perda de Cabo Verde, para ele, é o fim da dominação portuguesa, em África. Portanto, nós sabemos que somos capazes de transformar esta realidade, e o simples facto desta reunião é mais uma prova clara da criação de uma realidade nova na nossa terra. Na terra de ontem que nós conhecíamos, na própria realidade que por exemplo o Cruz Pinto deixou para ir estudar em Portugal, ou que o Bobo deixou quando ali saiu para fazer o curso de política, não era possível uma reunião de camaradas como esta, nem dentro nem fora da nossa terra, não era possível. Quando compararmos aquele momento em Bissau, em que eu chamei os melhores amigos da minha casa, e lhes disse: Camaradas, vocês são muito amigos da minha mãe, são meus amigos também, vocês vêm a minha casa, nós comemos, brincamos, mas a hora da brincadeira acabou, comecemos a fazer umas pequenas conversas. — Sim senhor. Nós conversámos, marcámos uma reunião. Mas não vieram, só vieram um ou dois. Não vieram porque eles pensavam que isso era uma doidice. Se comparamos aquele momento com o momento de hoje, vemos de facto que a criação do P. A. I. G. C. foi o ponto de partida para criar na nossa terra, Guiné e Cabo Verde, uma realidade nova, camaradas. E temos de criá-la e desenvolvê-la cada dia mais para servirmos cada vez melhor não só e principalmente o interesse do nosso povo, mas também o interesse da África, o progresso da humanidade.



Fonte: marxists.org

 

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