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Confrontando “Império”

Arundhati Roy

27 de janeiro de 2003

 

Foi pedido a mm falar sobre “como confrontar Império?” É uma pergunta enorme, uma qual eu não tenho resposta fácil.


Quando falamos de confrontar “Império”, temos primeiro que identificar o que é “Império”. Significa o governo Estado Unidense (e seus vassalos europeus), o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, a Organização Mundial do Comércio e Corporações multinacionais? Ou é algo mais que isso?


Em muitos países, Império brotou outras cabeças subsidiarias, alguns subprodutos perigosos - nacionalismo, preconceito religioso, fascismo e, é claro, terrorismo. Estes marcham lado a lado com o projeto de corporativo de globalização.


Deixe-me ilustrar o que digo. Índia - a maior democracia do mundo - é atualmente a vanguarda da globalização corporativa. Seu “mercado” de um bilhão de pessoas está sendo cobiçado pela OMC. Corporativização e privatização estão sendo bem vindos pelo governo e a elite indiana.


Não é coincidência que o primeiro-ministro, ministro da casa, o ministro do desinvestimento - os homens que assinaram um acordo com Enron¹ na Índia , os homens que estão vendendo a infraestrutura do país para multinacionais corporativas, os homens que querem privatizar a água, eletricidade, petróleo, carvão, aço, saúde, educação e telecomunicação - são todos membros ou admiradores da RSS. A RSS é uma guilda hindu de direita, ultra-nacionalista, que abertamente admira Hitler e seus métodos.


O desmonte da democracia está procedimento com a velocidade e eficiência de um Projeto de Ajuste Infraestrutural². Enquanto o projeto da globalização corporativa lacera a vida das pessoas na Índia, privatização massiva e “reformas” trabalhistas empurram pessoas fora de suas terras e fora de seus empregos. Centenas de fazendeiros pobres cometem suicídio consumindo pesticida. Notícias de morte de fome vem de todo o país. Enquanto as elites fazem suas jornadas ao destino imaginado próximo do topo do mundo, os despossuídos estão caindo em espiral para o crime e o caos. O clima de frustração e desilusão nacional é solo fértil, a história nos mostra, para o fascismo.


Os dois braços do governo indiano desenvolveram a ação perfeita de pinças. Enquanto um braço está ocupado vendando a Índia em pedaços, o outro, para divergir a atenção, está orquestrando um uivante e acuado coral de nacionalismo hindu e fascismo religioso. Está conduzindo testes nucleares, reescrevendo livros de história, queimando igrejas, demolindo mosques. Censura, vigilância, a suspensão de liberdades civis e direitos humanos, a definir quem é ou não um cidadão indiano, particularmente com minorias religiosas, está se tornando comum agora.


Março passado, no estado de Gujarat, dois mil muçulmanos foram massacrados em um pogrom patrocinado pelo estado. Mulheres muçulmanas foram alvos em especial. Foram despidas, estupradas em grupo e depois queimadas vivas. Incendiários queimaram e roubaram lojas, casas, industrias têxteis e mosques.


Mais de cento e cinquenta mil muçulmanos foram expulsos de suas casas. A base econômica da comunidade muçulmana foi devastada.


Enquanto Guajarat queimava, o primeiro-ministro indiano estava na MTV promovendo seus poemas novos. Em janeiro deste ano, o governo que orquestrou o massacre foi votado novamente para o ofício com uma maioria confortável. Ninguém foi punido pelo genocídio. Narendra Modi, arquiteto do Pogrom, membro orgulhoso da RSS, embarcou em seu segundo mandato como ministro chefe de Guajarat. Se ele fosse Saddam Hussein, é claro, cada atrocidade estaria na CNN. Mas como ele não é - e como o mercado indiano está aberto aos investidores globais - o massacre não foi nem uma inconveniência vergonhosa.


Existem mais de cem milhões de muçulmanos na Índia. Uma boma relógio está prestes a explodir na terra ancestral.


Tudo para dizer que o mito do livre-mercado quebra as barreiras nacionais. O livre-mercado não ameaça soberania nacional, ele mina a democracia.


Enquanto a disparidade entre os ricos e os pobres cresce, a luta por recursos está se intensificando. Para empurras seus “acordos queridinhos” para corporativizar a comida que cultivamos, a água que bebemos, o ar que respiramos e os sonhos que sonhamos, a globalização corporativa precisa de uma confederação internacional de governos autoritários, leais e corruptos em países mais pobres para empurras as reformas impopulares e aquietar os motins.


A globalização corporativa - Devemos chamá-la pelo seu nome? Imperialismo - precisa de uma imprensa que finge ser livre. Precisa de cortes que fingem ser justas.


Enquanto isso, os países do norte deixam suas fronteiras mais rígidas e acumulam armas de destruição em massa. Afinal, precisam garantir que apenas dinheiro, bens, patentes e serviços sejam globalizados. Não o movimento livre das pessoas. Não o respeito aos direitos humanos. Não tratados internacionais sobre descriminação racial, ou armas químicas e nucleares, ou emissão de gazes estufa, ou sobre as mudanças climáticas, ou ainda - deus os livre - justiça


Então isso - tudo isso - é “Império”. Essa confederação leal, essa acumulação absurda de poder, o aumento na distância entre aqueles que tomam as decisões e aqueles que devem sofrer.


Nossa luta, nosso objetivo, nossa visão para um mundo diferente deve eliminar essa distância.


Então como resistimos “Império”?


A boa notícia é que não estamos indo tão mal. Houveram grandes vitórias. Aqui na America Latina tivemos muitas - Na Bolívia temos Cochabamba³. No Peru tivemos o levante em Arequipa⁴. Na Venezuela, o presidente Hugo Chaves resiste apesar do esforço do governo estado unidense.


E o mundo observa o povo argentino, tentando reconstruir o país das cinzas deixadas pelo FMI.


Na Índia, o movimento contra a globalização corporativa está ganhando tração e se colocando a ser a única força politica contra o fascismo religioso.


Quanto aos embaixadores da globalização corporativa - Enron, Bechtel⁵, WorldCom⁶, Arthur Anderson⁷ - onde estavam ano passado? Onde estão agora?


E é claro, aqui no Brasil temos de nos perguntar… Quem era o presidente ano passado? Quem é agora?


Mesmo assim, muitos temos momentos de desesperança e desespero. Sabemos que sob a marquise da guerra ao terror, os homens de terno estão trabalhando duro.


Enquanto bombas chovem sob nós e misses teleguiados cruzam o céu, sabemos que contratos são assinados, patentes registradas, petróleo privatizado e George Bush planeja uma guerra contra o Iraque.


Se olharmos este conflito como um confronto “olho no olho” entre “Império” e aqueles que o resistem, seria justo dizer que estamos perdendo.


Mas existe outra maneira de ver. Nós, todos nós aqui, declaramos, de nossa própria maneira, cerco à “Império”.


Podemos não te-lo parado em seus trilhos - ainda - mas já o despimos. Fizemos sua máscara cair. O forçamos a se abrir. Ele se mostra agora se mostra a nós frente ao palco global com toda sua nudez bruta e perversa.


Império pode muito bem ir à guerra, mas está em campo aberto agora - demasiado feio para olhar seu próprio reflexo. Demasiado feito até mesmo para juntar seu próprio povo. Não será demorado até a maior parte do povo estado unidense se tornar nossos aliados.


Apenas a alguns dias atrás, em Washington, um quarto de milhão de pessoas marcharam contra a guerra no Iraque. A cada mês o protesto ganha mais energia. Antes do 11 de setembro de 2001 os Estados Unidos tinha uma história secreta. Secreta em especial para seu próprio povo. Mas agora os segredos americanos são história, e sua história é de conhecimento publico. É conversa de boteco.


Hoje, sabemos que cada argumento usado para escalar a guerra contra o Iraque é uma mentira. As mais absurdas delas sendo a devoção dos EUA de trazer democracia ao Iraque.


Matar pessoas para salvá-las de uma ditadura ou corrupção ideológica é um velho esporte do governo dos EUA. Aqui na America Latina vocês sabem mais que a maioria.


Ninguém duvida que Saddam Hussein é um ditador com um punho de ferro, um assino (cujos mais cruéis atos foram apoiados pelos governos dos EUA e do Reino Unido). Não resta dúvida que os iraquianos seriam melhor sem ele.


Mas, então, o mundo inteiro seria melhor sem um certo Sr. Bush. Na realidade, ele é muito mais perigoso que Saddam Hussein.


Deveríamos então bombardear Bush para fora da casa branca?


É mais que claro que Bush está determinado a ir à guerra com o Iraque, independe dos fatos - e independente da opinião pública global.


Em seu recrutamento para aliados, os Estados Unidos estão preparados para inventar os fatos.


A charada com os inspetores de armas é a ofensiva dos EUA, insultante concessão de um forma distorcida de etiqueta internacional. É como deixar uma fresta aberta para aliados de última hora, talvez até as Nações Unidas podem se esgueirar.


Mas para seu proposito principal, a guerra já começou.


O que podemos fazer?


Podemos afiar nossa memória, aprender com a história. Continuar construindo a opinião pública até ela se tornar um rugido ensurdecedor.


Tornar a guerra do Iraque em uma par de óculos para os abusos do governo dos EUA.

Expor George Bush e Tony Blair - e seus aliados - como os assassinos de crianças, envenenadores de água e bombardeiros a longa distância que são.


Reinventar a desobediência civis em milhões de diferentes maneiras. Em outras palavras, achar milhões de maneiras de se tornar um pé no saco.


Quando George Bush diz “Vocês estão conosco ou com os terroristas” diremos “Não!” Informaremos que o mundo não precisa escolher entre Mickey Mouse Malévolo e o Louco Mulá⁸


Nossa estratégia deve ser não apenas de confrontar Império, mas de cercá-lo. Depravá-lo de oxigênio. Envergonhá-lo. Ridicularizá-lo. Com nossa arte, literatura, nossa insistência, felicidade, brilhância, e nossa força de vontade - nossa capacidade de contar histórias nossas. Histórias que vão de frente as que fomos levados a acreditar.


A revolução corporativa irá colapsar se nos recusarmos o que eles vendem - suas ideias, sua versão da história, suas guerras, suas armas, sua noção de inevitabilidade.

Lembrem-se: Somos muitos e eles são poucos. Precisam de nós mais do que precisamos deles.


Um mundo novo é possível, ele está vindo. Em um dia silencioso eu ouço ele respirar.


Discurso de Arundhati Roy no fórum social mundial; 27 de janeiro de 2003; Porto Alegre, Brasil



 

¹Corporação de energia americana.


² Projetos do Fundo Monetário Internacional de empréstimos para fins estruturais em países pobres com certas condições, chamados também de Armadilhas de dívida.


³ Referência a revoltas populares que aconteceram no ano 2000 na cidade de Cochabamba contra a privatização municipal da água.


⁴ Levante popular contra a privatização de uma empresa estatal de gás em 2002.


⁵ Empresa de engenharia americana, segunda maior no país.


⁶ Empresa de telecomunicação, atualmente parte do conglomerado corporativa Verizon.


₇ Holding americana de contabilidade e consultoria corporativa.


⁸ Clérigo religioso muçulmano, também usado como professor ou líder.

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