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Prestes: "Como Cheguei ao Comunismo"

Atualizado: 18 de ago. de 2022

Luiz Carlos Prestes

Janeiro de 1973

No ano em que se completam cem anos do nascimento de Luiz Carlos Prestes. CULTURARA VOZES vem oferecer aos seus leitores a oportunidade de conhecer um escrito particularmente interessante do Cavaleiro da Esperança. Trata-se do seu artigo "Como cheguei ao comunismo", (publicado na Revista Internacional Praga, N. 1, janeiro de 1973, Tchecoslováquia) e que, atualmente, é praticamente desconhecido do público brasileiro. O artigo foi feito a pedido da referida revista por ocasião do 75º aniversário natalício do então secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro e relata o caminho, extremamente original, percorrido por Prestes, do movimento tenentista do qual se tornaria a liderança máxima no final dos anos vinte - para o comunismo cientifico. - Anita Leocádia Prestes.

 

Em 5 de julho de 1922, um levante na Escola Militar e no Forte de Copacabana marcou o início no Brasil do movimento político que receberia mais tarde o nome de "tenentismo"(1), já que dele participaram principalmente jovens oficiais das forças armadas. No mesmo ano, alguns meses antes, um grupo de patriotas ligados ao movimento operário havia fundado o Partido Comunista no Brasil. Estes dois acontecimentos importantes deram origem a duas correntes políticas independentes que, chocando-se por vezes entre si ou aproximando-se noutras, desempenharam um relevante papel na vida política brasileira. Apesar da dura perseguição de que era alvo, o partido da classe operária conseguiu vencer todos os obstáculos e, após haver sido declarado liquidado por diversas vezes pelas classes dominantes, ressurgia mais forte do que antes. Na atualidade, é o único partido político realmente organizado em todo o País. Quanto ao tenentismo, a partir do ano de 1930, quando muitos de seus dirigentes chegaram ao poder, desagregou- se. A maioria dos quadros da sua direção capitulou e pôs-se ao serviço das classes dominantes, dos latifundiários e grandes capitalistas, abertamente ligados ao imperialismo dos Estados Unidos. Não obstante, alguns foram ganhos para as posições da classe operária e ingressaram no Partido Comunista, em cujas fileiras militaram ou continuam militando. Este último é o meu caso pessoal. Quero recordar aqui como foi possível essa evolução de um militar de origem pequeno-burguesa, educado pelas classes dominantes para defender o regime político imperante e que, de dirigente do movimento tenentista, passou a ser membro do partido político revolucionário marxista-leninista. Trata-se de um processo que não foi rápido nem fácil. Teve a duração de alguns anos, e, embora tenha contado com fatores favoráveis, que o aceleraram, também chocou-se com obstáculos difíceis de vencer. Trata-se enfim de uma experiência que talvez possa ser hoje útil à juventude revolucionária que, como eu então, busca o caminho para participar de maneira ativa e consequente na luta pelo progresso social e o futuro feliz de seu povo.


A Coluna Invicta


Não cabe aqui analisar as causas que levaram ao levante militar de 1922. Com a crise económica do pós-guerra, cujas consequências no Brasil tornariam-se mais sensíveis em 1921, coincidiu um acontecimento político de importância: a sucessão presidencial, que se realizaria através das eleições de março de 1922. As forças políticas agruparam-se em dois bandos: o do candidato das forças de direita, triunfante nas eleições, e o da oposição. Esta última conseguiu ganhar para o seu lado a jovem oficialidade das forças armadas, que estava descontente e ansiava por mudanças na situação do País, que protestava contra a fraude eleitoral sistemática, exigia a moralização dos costumes políticos e sonhava com o progresso da nação, compreendida a modernização das forças armadas, cuja ineficiência era conhecida pelos militares profissionais mais capazes. O movimento militar de 1922 foi derrotado. Mas ficou assinalado pelo gesto heroico do tenente Antônio de Siqueira Campos, que, comandando 17 companheiros, enfrentou as forças do governo. A heroica resistência daquele grupo de valentes comoveu toda a nação. Mas as forças eram desiguais. Como consequência da derrota, centenas de jovens oficiais foram detidos e processados juridicamente. Cerca de mil cadetes foram expulsos da Escola Militar e numerosos oficiais transferidos para guarnições longínquas. Apesar da repressão, reforçou-se a solidariedade profissional entre a jovem oficialidade, ampliou-se o campo dos descontentes e aumentou o número dos que estavam dispostos a reagir. Transferido do Rio de Janeiro para uma cidade do interior do Estado do Rio Grande do Sul, embora mantendo uma atitude apolítica, como a maioria de meus companheiros — todos em geral ignorantes a respeito dos problemas sociais —, participei ativamente da conspiração que levou a um segundo 5 de julho, com o levante da maior parle da guarnição de São Paulo, em 1924. Depois resistir durante 20 dias ao assédio das forças do Governo central, os revolucionários de São Paulo retiraram se para o interior do País e situaram-se na parte ocidental do Estado do Paraná, nas fronteiras do Brasil com a Argentina e o Paraguai. Por haver sido com atraso que nos inteiramos do levante de São Paulo, somente em 29 de outubro conseguimos sublevar algumas unidades do Exército aquarteladas no Estado do Rio Grande do Sul. Sob pressão das forças governamentais, dirigimo-nos para o norte e conseguimos nos unir às forças de São Paulo, formando com os remanescentes — já que numerosos elementos haviam abandonado a luta — uma coluna de pouco mais de mil homens, mal armados e pessimamente municiados. Nosso propósito era atrair contra nós as forças da reação, para permitir que nossos colegas da Capitai do País pudessem depor o Chefe de Estado. De fato, não tínhamos ouro objetivo claro, político ou social. Graças aos êxitos alcançados mediante uma tática baseada na rapidez de movimentos e na orientação de evitar, no possível, os combates com forças superiores, mas atacando de surpresa as unidades inimigas para desmoralizá-las e apoderarmos de suas armas e munições, verificamos que, nas condições de nosso País, tínhamos a possibilidade de nos mantermos em armas durante meses e anos. Em pouco mais de dois anos, cruzamos o País de sul a norte e de este a oeste, enfrentando forças dez e vinte vezes superiores, mobilizadas tanto pelo poder central, como pelas autoridades dos Estados e dos municípios e por numerosos caudilhos locais. Durante a marcha através de regiões atrasadas do País, sofrermos o primeiro e decisivo choque psicológico ao entrar em contato com a realidade brasileira. Filhos da pequena-burguesia urbana e imbuídos de uma arrogância chauvinista que nos proporcionava uma ideia falsa da vida de nosso povo, surpreendemo-nos com o atraso e a miséria em que vivia a população brutalmente explorada e oprimida por uma minoria proprietária da terra. Descobrimos rapidamente que no Brasil, rico e imenso, uma parte considerável dos camponeses não possuía um palmo de terra, via-se obrigada a viver nas terras dos grandes proprietários, submetida a seu arbítrio e sem ter a quem apelar, já que todas as autoridades locais eram aparentadas com os latifundiários ou estavam também submetidas à sua vontade. No interior do Brasil, não tinha vigência a Constituição nem eram respeitadas as leis(2). Verificamos a miséria incrível dos trabalhadores, descalços e esfarrapados a tal ponto que, em alguns lugares, ao passar a Coluna, os camponeses mantinham suas filhas encerradas nas choças, pois não tinham com que vestir-se, por só possuírem, para todas elas, um único e andrajoso vestido. Chocamo-nos com uma situação sanitária espantosa, sem nenhum recurso médico ou farmacêutico. Mais de uma vez, o acampamento da Coluna foi literalmente cercado pela população local que solicitava de nossa pequena ambulância remédios para seus enfermos. Enfim, o quadro foi sempre o mesmo ao longo dos 25.000 quilómetros que percorremos. Mas, se era um quadro que nos comovia e nos enchia de patriótica indignação, ao mesmo tempo nos fez compreender que problemas tão sérios não poderiam ser solucionados com a simples mudança de homens na presidência da República. Simultaneamente, modificava-se a opinião errónea que tínhamos dos trabalhadores, os quais, na verdade, víamos como seres inferiores, passivamente submetidos à elite letrada e aos donos do poder. Expressão desta posição errónea, semelhante à defendida por Monteiro Lobato ao criticar em seu livro “Utupês" o camponês miserável e analfabeto, ridicularizado na figura do Jeca-Tatu, foi uma passagem da carta que dirigi ao marechal Isidoro Dias Lopes, comandante das forças rebeldes de São Paulo, na qual, em termos que refletiam desprezo, dizia eu que o Governo "tem fábricas de munição, fábricas de dinheiro e analfabetos para jogar contra nossas metralhadoras". Supúnhamos também, como dizia naquela mesma carta, ao defender a guerra de movimento, que "com a marcha engrossaríamos a Coluna", o que não sucedeu, pois os trabalhadores do campo, se bem que simpatizassem com nossa luta, já que contra nós se lançavam todos os seus opressores, e admirassem nosso heroísmo e desprendimento, não se sentiam dispostos (com raras exceções de alguns jovens) a sacrificar seus interesses e suas vidas numa luta que não podiam acreditar que fosse vitoriosa. Na realidade, os camponeses não possuíam a consciência política necessária, consciência que não podíamos transmitir-lhes, por sermos incapazes então de compreender a profundidade dos problemas sociais que enfrentávamos, como até mesmo as diferenças de classes no campo. A consciência política dos camponeses só poderia ser desenvolvida mediante a propaganda e agitação, por meio da atividade paciente e prolongada de uma organização bem preparada teoricamente e capaz de ligar-se à vida dos trabalhadores, e não pela ação direta, como supúnhamos naquela época(3). Naquelas condições, no final do ano de 1926 já havíamos compreendido a inutilidade de nosso esforço e começamos a nos dar conta de que as consequências da luta que sustentávamos pesava principalmente sobre a parte mais pobre da população, já que atrás da Coluna vinham as forças do Governo, capazes de todas as violências e arbitrariedades, sobretudo quando se tratava das policias militares dos Estados e dos destacamentos de caudilhos mercenários, armados pelo Governo central. Além disto, por carecermos de um objetivo político claro, no seio da Coluna começavam a aparecer sintomas de degeneração, o que poderia levar a transformar muitos de seus membros em salteadores e bandidos. Decidimos então cessar temporariamente a luta e retirar em direção à fronteira brasileira-boliviana, a qual cruzamos em 3 de fevereiro de 1927, na qualidade de exilados políticos. A marcha da Coluna foi um acontecimento de excepcional importância política. Mostrou às grandes massas populares de quase todo o Brasil a possibilidade de uma luta prolongada e vitoriosa contra seus opressores e encheu de esperanças e entusiasmo o coração de cada patriota. A Coluna, que não tinha um programa claro de reivindicações socioeconômicas e políticas, foi, no entanto, a primeira manifestação concreta da luta de nosso povo contra o poder político central e, portanto, contra o latifúndio e o imperialismo, pela liberdade, a independência nacional e o progresso social e, por isso, seus feitos permanecem indeléveis na memória do povo.


Em busca de um caminho acertado


Enquanto alguns chefes da Coluna se dirigiam a La Paz e Buenos Aires, a fim de mobilizar recursos que permitissem a subsistência dos exilados, coube a mim a tarefa de conseguir trabalho na Bolívia para nossos soldados. Pela primeira vez em minha vida entrei em contato com uma empresa imperialista, a Bolivian's Co. Ltda., empresa inglesa que se dispunha a colonizar terras bolivianas nas margens do rio Paraguai e que passava por dificuldades com a falta de braços, já que a população indígena chiquitana se negava a deixar-se explorar pelos ingleses. Os feitos da Coluna tiveram enorme repercussão no Brasil e já começam a ser explorados pelas mais diversas correntes políticas. Para compreender o que estava ocorrendo, dediquei-me a ler. Os amigos enviaram-me numerosos livros, entre eles publicações revolucionárias, como o "Manifesto Comunista" de Marx e Engels, e coletâneas de artigos de Lênin.

Em dezembro de 1927, entrevistei-me em Puerto Suarez com Astrogildo Pereira, emissário do Partido Comunista e portador de uma credencial assinada por Otávio Brandão, em nome da direção do Partido. Obtive então as primeiras informações sobre a revolução russa, o movimento comunista e a União Soviética, onde o emissário dos comunistas estivera no ano anterior. Com os recursos recebidos do Brasil — fruto da subscrição popular — consegui que a maioria dos elementos da Coluna regressassem ao Brasil, ao seio de suas famílias. Em 1928, passei a residir em Buenos Aires. E lá me dediquei ao estudo do marxismo. Para mim teve um influxo decisivo a leitura de "O Estado e a Revolução", a grande obra de Lênin, que me fez compreender o quanto era falsa e errónea a concepção que tinha do Estado, que me havia sido inculcada pelo ensino universitário e que me fazia ver no Estado uma instituição situada acima das classes sociais e encarregada de distribuir a justiça e de dirigir como árbitro os destinos do país em benefício de toda a população. Foi esse, sem dúvida, o livro que me decidiu a iniciar uma revisão profunda de minha concepção da vida e do cabedal de conhecimentos acumulados até então. O primeiro tomo de "O Capital" revelou-me o segredo da exploração capitalista e tornou-me socialista por convicção científica. O pensamento lógico e a base materialista adquirida no estudo das ciências naturais na Escola Militar me permitiram orientar-me melhor no estudo dos problemas sociopolíticos e me fizeram compreender a inconsequência do reformismo. Para ser honesto comigo mesmo, não podia deixar de tomar o caminho revolucionário. Era preciso entregar-me por inteiro â causa da luta pela transformação radical da situação do povo brasileiro. Mas seria capaz de ganhar para as novas ideias revolucionárias os companheiros das lutas anteriores, que me haviam elevado ao posto de chefe da Coluna? O problema familiar, que me preocupava, foi de fácil solução, já que minha mãe e minhas irmãs estavam dispostas a enfrentar todas as vicissitudes da vida. Com os velhos companheiros, a situação era diferente. Entusiasmados com a polaridade alcançada, esperavam que os próximos acontecimentos lhes permitissem galgar o poder político. Corria o ano de 1930, a sucessão presidencial estava às portas e alguns governantes, principalmente o do Estado do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, pensavam apoiar-se no prestígio da Coluna para escalar o poder central. Getúlio Vargas fora ministro da Fazenda do Governo Washington Luís, em que representara os interesses dos latifundiários e grandes capitalistas do Rio Grande do Sul. Posteriormente foi eleito presidente de seu Estado, como candidato do partido político mais conservador. Antônio Carlos, presidente do Estado de Minas Gerais, e João Pessoa, presidente do Estado da Paraíba, igualmente representantes das forças conservadoras, eram seus aliados. Em 1929/1930 desenvolveu-se a luta entre os grupos oligárquicos sob a influência do poder central. “Façamos a revolução antes que o povo a faça", dizia naquela época Antônio Carlos. A luta entre os dois bandos em que se dividiam os politiqueiros das classes dominantes era também um reflexo das contradições que se aguçavam entre os imperialistas ingleses e norte-americanos. O capital norte-americano, interessado em desalojar o inglês de suas posições no Brasil, apoiou financeiramente a Vargas. Este fundou o Banco do Estado do Rio Grande do Sul com um empréstimo de 160 milhões de dólares dos banqueiros ianques Dillon Read. Por sua vez, Antônio Carlos, com grande prejuízo para o Estado, vendeu à Light and Power canadense, subordinada aos monopólio dos Estados Unidos, a usina elétrica que abastecia a capitai do Estado que presidia. Com esses recursos, realizou Vargas o “milagre de unificar politicamente a burguesia do Rio Grande do Sul descontente com o governo de Washington Luís. Foi assim que surgiu a então chamada Aliança Liberal. Enquanto que Vargas era para mim um representante dos latifundiários e grandes capitalistas, ligados ao imperialismo norte-americano, meus velhos companheiros passaram, em sua quase totalidade, a apoiá-lo. Nossos caminhos, assim, pois, divergiam. Pouco antes tivera lugar meu segundo encontro com os dirigentes dos comunistas brasileiros, Paulo Lacerda e Leôncio Basbaum (o primeiro como representante do Comité Central do PCB e o segundo como representante da Juventude Comunista), os quais solicitavam que eu aceitasse a apresentação do meu nome como candidato à presidência da República pelo Partido Comunista do Brasil. Não aceitei a proposta, embora estivesse de acordo com o programa eleitoral do PCB, porque me sentia ligado por um compromisso moral aos tenentistas e, além disto, não perdera a esperança de ganhá-los para uma posição revolucionária, de conseguir convencê-los de que a vitória de Vargas não levaria a nenhuma melhora da situação do povo, nem libertaria a nação do jugo imperialista. E que a participação dos tenentes no poder com Vargas, sem dispor, como efetivamente não dispunham, de uma torça política organizada e independente, significaria uma capitulação às classes dominantes e os desprestigiaria aos olhos do povo brasileiro. Em maio de 1930, tornei público meu Manifesto, que consagrou a cisão do movimento tenentista, minha separação dos companheiros que haviam ocupado postos de comando na Coluna e no qual expus minha posição revolucionária, anti-imperialista, e de luta contra o latifúndio e pelo poder para os trabalhadores.


"A revolução brasileira — dizia no referido Manifesto — não pode realizar-se com o programa anódino da Aliança Liberal. Uma simples mudança de homens no poder, o voto secreto, promessas de liberdade eleitoral, honestidade administrativa, respeito à Constituição, moeda estável e outras panaceias nada resolvem nem podem interessar, de modo algum, à grande maioria de nosso povo, sem cujo apoio qualquer revolução que se faça terá o caráter de uma simples luta entre as oligarquias dominantes"

Logo mais adiante, se assinalava:


"Apesar de toda essa demagogia revolucionária e das afirmações dos liberais de que se propugnam pela revogação das últimas leis repressoras, não houve na Aliança Liberal quem protestasse contra a brutal perseguição política de que foram vítimas as associações proletárias de todo o país durante a última campanha eleitoral, e no próprio Rio Grande do Sul. Em plena fase eleitoral, foi desencadeada a mais violenta perseguição aos trabalhadores que lutavam por suas reivindicações. Os propósitos das oligarquias em pugna são idênticos".

Se bem que o Manifesto fosse considerado como uma declaração de adesão ao movimento comunista, naquela época não era esta ainda minha posição. Na realidade, naquele, então, pensavam em organizar uma força política que, com uma plataforma radical, pudesse aliar-se como força independente ao Partido Comunista. Desta circunstância quiseram aproveita-se alguns intelectuais brasileiros trotsquistas, os quais encontraram-se comigo em Buenos Aires e conseguiram, por algum tempo, influir em minha busca de um caminho revolucionário. Sob a influência deles tomei a decisão de tomar a iniciativa de criar Liga de Ação Revolucionária, publicando em julho de 1930 um novo manifesto ao povo brasileiro, no qual, conquanto sem nenhuma crítica ou ataque ao PCB, algumas expressões refletiam posições esquerdistas, sectárias e inclusive tipicamente trotsquistas.


Foi então que surgiu a intervenção de uma pessoa, um comunista foi quem me ajudou a tomar pelo caminho acertado que me levaria a renunciar definitivamente às honras com que me pretendiam seduzir-me os partidários do imperialismo e do latifúndio, livrar-me de influências estranhas e converter-me em soldado do único movimento revolucionário consequente, do movimento operário e comunista. Essa pessoa foi o camarada Rústico(4) que se achava então em Buenos Aires, à frente do Bureau Sul-americano da Internacional Comunista. Logo após a publicação do Manifesto de Maio de 1930, Rústico procurou encontrar-se comigo através dos camaradas argentinos, e teve então ocasião de felicitar-me pela posição assumida. Após a publicação do Manifesto, em que propugnava pela criação da Liga de Ação Revolucionária, entrevistou-se ele novamente comigo para dizer-me com toda franqueza o quanto lamentava minha nova posição, que a juízo dele, significava um passo para trás. O primeiro Manifesto – disse-me – significava uma aproximação franca com o movimento comunista, enquanto que no segundo se propunha a criação de um partido politico que, não sendo do proletariado, não passaria de um novo partido burguês. Tais encontros não eram fáceis, pois a Argentina já passara a ser governada por uma ditadura militar. Apesar disto, ainda tivemos alguns encontros. Rústico falava-me da luta de Lênin contra os populistas, os economistas e os mencheviques. Foram verdadeiras lições sobre a história do movimento bolchevique, que me fizeram compreender o caminho da revolução russa. Em 2 de outubro de 1930, na véspera do levante militar de Vargas, fui detido. O almirante-chefe da polícia da ditadura de Uriburu ameaçou-me de fuzilamento por haver feito declarações à United Press — que não chegaram a ser publicadas, mas que caíram em mãos das autoridades —, nas quais dava a entender que os generais argentinos estavam vendidos ao imperialismo ianque. Só fui posto em liberdade com a condição de abandonar imediatamente o país. Viajei, então, para a cidade de Montevidéu, onde já se encontrava o camarada Rústico. Lá mantivemos um contato pessoal mais fácil e prolongado. Sob a influência de sua argumentação e do estudo que pude fazer do problema, compreendi o erro cometido e também a impossibilidade de levar adiante a ideia de organizar a Liga de Ação Revolucionária. Devo aqui agregar que, uma vez iniciado no Brasil o movimento militar de outubro de 1930, inspirado pela Aliança Liberal, tratei de enviar imediatamente um amigo à fronteira brasileira-uruguaia, onde contava com numerosos partidários, inclusive nas unidades do Exército brasileiro, para verificar a possibilidade de organizar uma força armada independente que pudesse modificar o curso da luta popular que estava em desenvolvimento no país. Mas poucos dias depois, em 24 de outubro, com o levante dos generais no Rio de janeiro, que depôs o presidente Washington Luís, cessou a luta armada. Subiu ao poder Getúlio Vargas em confabulação com os generais golpistas, assim como com o imperialismo norte-americano e inglês. De Montevidéu pude acompanhar a atividade do Governo Vargas, no qual ocupavam postos de destaque todos os meus ex-companheiros da Coluna, com exceção de Antônio de Siqueira Campos, falecido anteriormente, em acidente de aviação. Através de sucessivos documentos públicos, combati a política do novo Governo e procurei desmascarar sua atividade reacionária, sua submissão ao imperialismo e ao latifúndio e seu profundo sentido antipopular. A violenta ruptura com o tenentismo contribuiu decisivamente para minha formação ideológica e facilitou minha progressiva aproximação com o movimento comunista e operário, hm março de 1931, tornei público um documento em que dizia:


"A todos os revolucionários sinceros e honestos, às massas trabalhadoras que neste momento de desilusão e desespero voltam-se para mim, só posso indicar-lhes um caminho: a revolução agrária e anti-imperialista sob a hegemonia incontestável do proletariado, o PCB, seção brasileira da Internacional Comunista".

Na pátria do Grande Outubro


O Governo Vargas decretou anistia para os revolucionários do movimento tenentista e da Coluna, mas não podia eu voltar ao Brasil, pois se havia intensificado a perseguição aos comunistas. De outro lado, a vida em Montevidéu era para mim muito difícil. Nesta situação, os camaradas do Partido Comunista do Uruguai me propuseram que fosse para a União Soviética, onde poderia trabalhar como engenheiro, teria a possibilidade de conhecer a experiência soviética e oferecer-se-iam maiores oportunidades para estudar o marxismo-leninismo. Aceitei a proposta e, acompanhado de minha família, cheguei a Moscou em novembro de 1931.

Para quem acabava de passar pelas capitais da Europa Ocidental, o panorama da capital Soviética parecia desolador. Nos países capitalistas, em plena crise económica, os grandes armazéns estavam abarrotados de mercadorias que não tinham compradores. Em Moscou, os armazéns estavam literalmente vazios.

O abastecimento estava racionado e os compradores formavam filas para adquirir os artigos mais indispensáveis. Passamos muitos meses tomando o chá sem açúcar. Mais difícil ainda era conseguir roupa e calçado. Apesar das dificuldades da vida, suscitavam verdadeira admiração os ingentes esforços do povo soviético para cumprir em quatro anos o primeiro Plano Quinquenal e, de modo particular, a grande atividade desenvolvida pelo Partido Comunista, que explicava pacientemente ao povo as causas das dificuldades que atravessava. No país soviético estava decidido em prazo histórico brevíssimo construir as bases da sociedade socialista. Era na URSS onde melhor se podia compreender o papel dirigente do partido marxista-leninista de partido de vanguarda, sua capacidade de ligar se às massas, de aplicar sua linha política, de mobilizar, organizar e entusiasmar o povo para a realização das tarefas que exigiam uma elevado consciência política, enorme abnegação e grande espírito de sacrifício. Pude participar de reuniões do Secretariado da Internacional Comunista em que se discutiam os problemas da América Latina e acompanhar, portanto, a luta que se travava em seus países sob a direção dos respectivos partidos comunistas e operários. Estive presente às reuniões plenárias 12 e 13 do Comilâ Executivo da IC e tive ocasião de acompanhar de perto o desenvolvimento da luta contra o fascismo e também de conhecer pessoalmente, além do então secretário-geral da IC, camarada Manuilski, nobre e querido amigo meu e de minha família, a grandes dirigentes do movimento comunista como Togliatti, Thaelman, Pieck, Thorez, Kuusinen, Bela Kun, Van Min e outros muitos. Em companhia cie delegações de trabalhadores espanhóis que naquela época visitavam com frequência a URSS, pude conhecer as grandes obras que se estavam realizando por todo o país e que eram um testemunho do gigantesco esforço de todo o povo soviético e o berço do poderio e da grandeza atuais do primeiro país socialista. Meu exílio na União Soviética contribuiu decisivamente para definir meu destino. De início, a direção do PC não considerava conveniente aceitar como membro do Partido a uma pessoa da minha origem social, mas, em agosto de 1934, "A ClasseOperária", órgão central do PCB, tornou pública que fora aceito como membro do Partido. Culminava assim minha evolução, que me levara do tenentismo às fileiras do partido do proletariado, e de minha condição de oficial das forças armadas a serviço das classes dominantes, à honrosa situação de soldado do grande exército do proletariado. Antes de voltar ao Brasil, em fins de 1934, tive ocasião de conhecer pessoalmente o camarada Jorge Dimitrov, líder destacado da Internacional Comunista. Com ele conversei a respeito da situação no Brasil, onde se intensificava a luta contra o fascismo. Dele ouvi palavras de estímulo e conselhos a respeito do comportamento do intelectual comunista, cuja missão consiste em servir à classe operária, compreendendo a necessidade de salvaguardar a unidade do Partido e de apoiar sua direção.

Já se passaram quase quarenta anos. Foram anos de dura luta, de longos períodos de prisão e de vida clandestina, de fluxos e refluxos do movimento revolucionário. Grandes massas de nosso continente participam hoje da convicção dos comunistas de que só o socialismo pode resolver os problemas de nossos povos. Sinto-me feliz com a opção política por mim feita e que confirma uma vez mais o acerto das palavras de Lênin de que


"no século XX num país socialista, é impossível ser democrata revolucionário se se teme marchar para o socialismo"(5).


 

Notas de rodapé: (1) Este movimento, cujo nome vem da palavra "tenente". era integrado por elementos democráticos das forças armadas brasileiras c era dirigido contra a ditadura de Artur Bemardes <1922/ 1926) - Nota da Redação. (2) Durante sua passagem, a Coluna fazia justiça revolucionária. queimava os livros judiciais e as listas fiscais. celebrando comícios, libertava o» presos políticos - Nota da Redação. (3) A luta era desigual. As insurreições armadas nos grandes centros do País, com as quais contavam os dirigentes da Coluna, foram esmagadas. Pese ao talento militar de Prestes, o heroísmo de seus combatentes e a simpatia da população, não se conseguiu constituir um movimento revolucionário de massas. Nota da Redação (4) Rústico – codinome de A[braham] Guralski. Nota de Anita L. Prestes (5) Lênin - Obras Completos. Edição Cartago. Tomo. XXV. p. 347.

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