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Connolly: “As dificuldades do capitalismo”

James Connolly

16 de junho de 1900

 

Na semana passada, escrevemos sobre as Dificuldades do Socialismo; esta semana, nos propomos a tratar de algumas Dificuldades do Capitalismo. Nesta conexão, gostaríamos de apontar que os críticos ao socialismo invariavelmente devotam suas forças à demonstração de quão distante o sistema socialista está da perfeição ideal e, estando satisfeitos com tal demonstração, eles concluem que a palavra final foi dada e que a discussão está terminada. Esses críticos podem surpreenderem-se ao descobrir que tal argumentação não toca no ponto de vista real do Partido Socialista, que nunca propôs que o socialismo escapará da mancha da falibilidade em função de todas as instituições de origem humana, mas apenas afirmando que o estabelecimento do nosso arranjo social em uma base socialista garantirá prosperidade material para todos os homens e mulheres, e assim garantindo que a raça tenha plena liberdade de buscar expressar suas faculdades da forma mais adequada às suas diversas caraterísticas. Nosso ponto de vista não assume que com o advento do socialismo todo o mal da nossa natureza desaparecerá imediatamente, que amor, ódio, ambição, luxúria, inveja e todas as outras forças que em nossas naturezas complexas gera conflito e discórdia serão erradicadas instantaneamente, e que a Terra se assumirá aspectos do Paraíso. Entretanto, nosso ponto de vista afirma que a pobreza e os crimes que nascem dela podem ser banidos, e que com a eliminação das dificuldades econômicas das nossas vidas, as forças intelectuais que hoje gastam-se perseguindo dominância se expressarão por vias mais úteis, e indivíduos procurarão renome como benfeitores, não como exploradores de sua espécie.


Nossos críticos sapientes também esquecem que a linha argumentativa que só consiste em desenvolver possíveis falhas em um futuro sistema de sociedade só é permitido aos que defendem um estado de sociedade que é em si sem falha alguma. A sociedade capitalista claramente não o é. Suas óbvias contradições são tantas e tão aparentes que muitos de seus defensores mais zelosos baseiam seu sucesso em manter a integridade dessa sociedade intacta na sua habilidade pessoal de convencimento em impressionar a multidão ignorante com a crença de que a reforma é inútil e, portanto, a política uma mera perda de tempo. O espaço disponível a nós não permite mencionar um décimo dos problemas e dificuldades, as contradições e absurdos, que jorram da própria natureza do capitalismo, mas uma curta enumeração de alguns desses pode ser útil em convencer os menos estúpidos de nossos críticos de que eles estão brincando com uma faca de dois gumes quando falam das falhas que o socialismo pode ter perante o capitalismo.


Por que é necessário que humanos trabalhem? Para fornecer o mundo com bens, é claro. Nós festejamos quando o mundo é suprido? Oh, não, esse é o maior desastre que podemos imaginar, porque aí ficaríamos sem fazer nada devido à produção excessiva. Nós devemos trabalhar para suprir o mundo, e quando o mundo estiver suprido, devemos passar fome porque há muito para todos e nosso trabalho não é mais necessário.


Ciência e inovação por meio do aumento da produtividade do nosso trabalho reduz o período necessário para estocar os mercados do mundo, e assim ao mesmo tempo, reduz o período durante o qual nosso trabalho é necessário e aumenta a duração da nossa ociosidade compulsória.


Uma dificuldade – uma dificuldade insolúvel – do capitalismo é desenvolver um método pelo qual a marcha da ciência e gênio inovador possam ajudar a indústria sem ameaçar o pão e a manteiga da classe trabalhadora.


Propriedade de todos os tipos criadas para o conforto humano merecem o respeitos de todas as pessoas. Entretanto, há momentos em que os desempregados que trabalhavam na construção civil não precisam lamentar se um conflito destrói uma rua ou se um terremoto danifica um prédio nobre, e temos sabido que os navegantes se regozijam quando algum navio majestoso naufraga no meio do oceano.


O mundo festeja os avanços da ciência médica, no entanto essa mesma arte que impede que suas vítimas vão para a cova também rouba os dividendos esperados das empresas de cemitério, bem como a chance dos agentes funerários ganharem a vida. No capitalismo, assuntos de calamidade pública – guerra, pestilência, morte – são comumente assuntos de agradecimento privado; o crepe na boina da viúva encontra seu contrapeso no café da manhã do coveiro.


Quando o capitalismo conseguir fazer o interesse privado coincidir com a riqueza comum; quando maquinário se tornar “economia de trabalho”, e não como hoje, economia de salário; quando um mercado excessivamente cheio significar para o trabalhador uma dispensa bem estocada, e não inatividade e fome, então será o momento para nossos inimigos nos contarem de nossas dificuldades futuras.


Mas sob o capitalismo, esse momento jamais chegará.



Fonte: marxists.org

 

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